Segregação residencial nas metrópoles brasileiras: o caso do RJ

O Observatório das Metrópoles divulga o estudo “A segregação residencial nas metrópoles brasileiras: Rio de Janeiro em perspectiva” oferecendo uma abordagem sintética do padrão da organização social do território da RMRJ a partir dos índices de segregação. A análise completa será publicada dentro do projeto “Transformações na Ordem Urbana das Metrópoles Brasileiras (1980-2010)”.

O texto “A segregação residencial nas metrópoles brasileiras: Rio de Janeiro em perspectiva” foi elaborado por Michael Chetry, pesquisador do Observatório das Metrópoles via bolsa de Pós-Doutorado da FAPERJ no IPPUR/UFRJ, doutor em Geografia e Planejamento Urbano pela Université Jean Moulin – Lyon 3 (França) e mestre em Planejamento Urbano pela Institut d’Urbanisme de Lyon (2004).

O documento é um resultado parcial do trabalho que está sendo produzido sobre os chamados “índices de segregação” os quais fornecem uma abordagem sintética do padrão da organização social do território; e podem ser um complemento útil às análises em termos das tipologias sócio-espaciais dos territórios – metodologia desenvolvida pelo Observatório das Metrópoles.

A pesquisa sobre o tema “segregação residencial nas metrópoles brasileiras” irá fornecer à Rede Nacional Observatório das Metrópoles uma base de dados por meio da qual os núcleos regionais poderão calcular vários índices de segregação relacionados à sua respectiva metrópole. Esses resultados serão avaliados e podem compor o projeto “Transformação na Ordem Urbana das Metrópoles Brasileiras (1980-2010) – estudo comparativo que a Rede Nacional Observatório das Metrópoles está produzindo sobre as 15 principais regiões metropolitanas do país, relacionando as mudanças econômicas, sociais e políticas às dinâmicas urbanas nacionais, regionais e locais.

Vinculado ao Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT), o projeto tem como objetivo oferecer a análise mais completa sobre a evolução urbana brasileira, servindo assim de subsídio para a elaboração de políticas públicas nas grandes cidades e para o debate sobre o papel metropolitano no desenvolvimento nacional.

 

A segregação residencial nas metrópoles brasileiras: Rio de Janeiro em perspectiva

Por Michael Alexandre Chetry

Os índices de segregação fornecem uma abordagem sintética do padrão da organização social do território. Neste sentido, eles podem ser um complemento útil as analises em termos de tipologias sócio-espacial do território mobilizadas ao longo deste livro, permitindo também a comparação da situação entre difrentes cidades (Apparicio, 2013).

A segregação é geralmente entendida como a distribuição desigual dos grupos de população através a cidade. Nesta concepção ela é comumente medida pelo índice de segregação (ou de dissimilaridade) de Duncan e Duncan (1955), que compara a distribuição de um grupo com o resto da população através das unidades espaciais. O valor do índice varia de 0 (distribuição perfeita) a 1 (segregação completa). Ele pode ser interpretado aproximativamente como a porcentagem dos membros deste grupo que deveriam se mudar para que a sua distribuição seja perfeita.

O índice de segregação da população x se calcula segundo a fórmula seguinte onde xi e ti são respectivamente o efetivo da população x e o total de população na unidade espacial i, X o efetivo total da população x, T o total da população e n o número de unidade:

Como exemplo, nos propomos neste trabalho calcular este índice para as CATs aglomeradas em Grupos na escala das Áreas de Ponderação com o objetivo comparar a situação da Região Metropolitana do Rio de Janeiro com as outras regiões metropolitanas.

Em 2010, a RMRJ apresenta um padrão de segregação bastante similar a todas as outras metrópoles brasileiras. Tirando os Agricultores, as categorias superiores (Dirigentes e Profissionais de Nível Superior) são as mais segregadas, seguido das camadas baixas (Trabalhadores do Secundário e dos Trabalhadores não qualificados do Terciário). No mesmo tempo, as Ocupações Médias e os Trabalhadores do Terciário são as categorias menos segregadas. Este resultado é conforme a situação encontrada em muitas cidades de outros países (Preteceille, 2006). Porém, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, destacam-se a intensidade da segregação das camadas superiores, assim como diferencias no nível de segregação com as outras metrópoles.

Assim, na RMRJ, as camadas superiores destacam-se por alcançar níveis de segregação superior no Rio do que na maioria das outras metrópoles brasileiras. O grupo dos dirigentes é claramente o mais segregado, o que é igualmente o caso nas demais metrópoles exceto Porto Alegre, onde o grupo o mais segregado é os Profissionais de Nível Superior. Porém os dirigentes são mais segregados na RMRJ que nas outras metrópoles brasileiras exceto São Paulo. Os Profissionais de Nível Superior têm também um índice de segregação maior na RMRJ do que na maioria das outras metrópoles brasileiras, sendo somente ultrapassada de forma significativa por Salvador, Brasília, Vitoria e Porto Alegre. Dentro das camadas superiores, observa-se também que no Rio, assim como em São Paulo, este grupo é claramente menos segregado do que os dirigentes.

As camadas baixas, que seguem na hierarquia da segregação, apresentam globalmente a mesma tendência. Os Trabalhadores do Secundário são mais segregados na RMRJ do que nas demais metrópoles, exceto Florianópolis e Porto Alegre. O grupo dos Trabalhadores não qualificados do Terciário apresentar na RMRJ um nível de segregação relativamente elevado em relação ao conjunto das metrópoles brasileiras, sendo apenas inferior aqueles de São Paulo, Porto Alegre ou BrasÍlia.

Em contrapartida, as Ocupações Médias e os Trabalhadores do Terciário são relativamente menos segregados na RMRJ do que nas outras metrópoles brasileiras. A RMRJ faz parte das metrópoles nas quais as Ocupações Médias têm os menores índices de segregação enquanto a segregação dos Trabalhadores do Terciário fica na média do conjunto das metrópoles.

Em resumo, a RMRJ compartilha com as outras metrópoles brasileiras um padrão de segregação idêntico no qual os grupos posicionados nas extremidades da estrutura social são os mais segregados. Porém, este padrão é mais acentuado na metrópole carioca, sendo que as camadas superiores e inferiores são mais segregadas e as categorias médias menos segregadas do que nas outras metrópoles brasileiras.

 

Bibliografia

APPARICIO P., 2013, “Les indices de ségrégation résidentielle : un outil intégré dans un système d’information géographique”, Cybergeo : European Journal of Geography [En ligne].

DUNCAN O.D., DUCAN, B., 1955, “A Methodological Analysis of Segregation Indexes”, Amrican Sociologial Review, 41, p. 210-217

PRETECEILLE E., 2006, “ “La ségrégation sociale a-t-elle augmenté ?” La métropole parisienne entre polarisation et mixité”, Sociétés contemporaines,  62, p. 69-93.

 

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