Como as cidades latino-americanas vêm enfrentando os desafios políticos e institucionais da transição para ônibus elétricos no transporte público? Para responder a este e outros questionamentos ligados à descarbonização, governança urbana e políticas públicas, o pesquisador do Núcleo Rio de Janeiro do INCT Observatório das Metrópoles, Pedro Bastos, lançou o livro “Do Petro ao Eletro: políticas para ônibus elétricos na corrida pela descarbonização do transporte público na América Latina”. Resultado da tese de doutorado do autor concluída no IPPUR/UFRJ, a obra está disponível em nossa Biblioteca Digital e integra a Coleção Metrópoles: Teses e Dissertações, editada em parceria com a Letra Capital Editora, com financiamento da Faperj.
Com foco nas experiências de Bogotá e São Paulo, o livro analisa as tensões, estratégias e contradições que moldam a transição para frotas de transporte público “sem emissões”. Segundo Bastos, o transporte global é um dos motores da crise climática. Ele aponta que as ondas de calor aumentaram oito vezes em 60 anos: entre 2011 e 2020, são 52 dias ao ano de ondas de calor, com estimativa de 55 mil mortes em excesso em áreas urbanas. De acordo com ele, o transporte público por ônibus oferece uma oportunidade potente para descarbonizar em escala e impacto.
O livro situa a eletromobilidade não como uma escolha técnica arbitrária, mas como uma resposta urgente à crise climática. Nesse contexto, os ônibus elétricos aparecem como protagonistas: cada veículo elétrico é capaz de economizar cerca de 500 barris de petróleo por ano, eliminando a emissão local de poluentes e gases de efeito estufa. Embora a frota latino-americana tenha saltado de 121 unidades em 2018 para quase seis mil em 2025, o autor observa que o Brasil ainda carece de uma estratégia nacional consolidada, ao contrário de vizinhos como o Chile e a Colômbia. “A descarbonização é uma pauta importante de política pública. O Brasil, hoje, ainda não tem uma estratégia para eletromobilidade, mas é preciso buscar uma solução para o problema comum global”, ressalta.
De acordo com a professora livre-docente do Departamento de Política Científica e Tecnológica Instituto de Geociências da Unicamp, Flávia Consoni, o autor desconstrói a ideia de que descarbonizar o transporte consiste apenas em substituir uma tecnologia por outra. “Trata-se de uma transformação sociotécnica profunda, marcada por disputas, aprendizados e novos arranjos entre atores públicos e privados. De forma crítica e consistente, o livro destaca o papel pouco explorado das redes de cooperação internacional, que impulsionam o aprendizado coletivo e desafiam os modelos tradicionais de governança urbana. Uma leitura essencial para compreender os desafios e as possibilidades da transição energética nas cidades”, discorre Consoni em depoimento para o livro.
Missões internacionais e o “Estado Empreendedor”
A pesquisa explora como redes de cooperação internacional, como a Aliança ZEBRA e a TUMI E-Bus Mission, atuam como “pontes de transição”. Segundo Bastos, essas missões cumprem um papel de “Estado Empreendedor”, assumindo riscos, antecipando mercados e transferindo conhecimento técnico para governos locais. Essa atuação é analisada sob a lente de políticas orientadas por missão, conceito da economista Mariana Mazzucato, sugerindo que a transição não ocorre espontaneamente pelo mercado, mas exige uma ação pública intencional e coordenada.
O livro detalha dois modelos distintos de implementação da tecnologia na região. Em Bogotá, adota-se um modelo de estratégia nacional articulada, já em São Paulo há uma transição “de baixo para cima”, motivada por marcos regulatórios municipais pioneiros (Lei nº 16.802/2018) na ausência de diretrizes federais.
Uma das conclusões centrais é que a transição tecnológica mudou de fase, ou seja, o problema principal não é mais a disponibilidade do veículo, mas a infraestrutura de recarga. O autor argumenta que a eletromobilidade exige que o planejamento urbano seja repensado como um sistema energético e logístico integrado, envolvendo o uso do solo, a rede elétrica e a adaptação das garagens. Além disso, o autor aponta a escassez de dados transparentes e a fragmentação da governança como barreiras significativas para o monitoramento efetivo das metas de descarbonização no Brasil.
Bastos propõe uma agenda estratégica para o país, fundamentada em pilares como pacto metropolitano, de modo a superar o municipalismo fragmentado para operar as metrópoles como sistemas integrados de transporte e energia; reindustrialização verde, evitando que o Brasil seja mero consumidor de tecnologia estrangeira (hoje 80% da frota regional é chinesa), incentivando a cadeia produtiva local de baterias e motores; e o Sistema Único de Mobilidade (SUM), que articula a Política Nacional de Mobilidade Elétrica a um novo arranjo federativo que garanta financiamento e coordenação entre União, estados e municípios.
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