Karl Polanyi e América Latina

Karl Polanyi e América Latina

Conferência Internacional Karl Polanyi e América Latina

O Instituto Del Conurbano (ICO), da Universidade Nacional General Sarmiento/Argentina, e o Instituto de Economia Política Karl Polanyi, da Universidade Concórdia/Canadá, realizam chamada de papers para a “Conferência Internacional Karl Polanyi”, até o dia 15 de março. O evento tem como propósito debater o pensamento do historiador húngaro ante os velhos e novos contextos de desenvolvimento latino-americano, sobretudo no tocante aos movimentos populares de questionamento ao modelo neoliberal.

No momento atual, podem as nações e os povos do mundo defender sua soberania protegendo as suas sociedades da subordinação do capital global e da dependência dos centros econômicos e políticos? Em particular, na América Latina, existem circunstâncias que são vistas como esperançosas:

a) Os processos nacionais-populares que se vêm dando como base em novos movimentos sociais, que questionam o modelo neoliberal como sentido da economia, em alguns casos propondo novos paradigmas: o socialismo do século XXI, o Bem Viver/Viver Bem, em qualquer caso garantindo o sustento de todos os cidadãos, respeitando a diversidade cultural e a harmonia com a natureza.

b) Surgem novas formas inter-estatais de ação solidária e resistência à hegemonia norte-americana (UNASUR, CEDLAC) em busca de uma maior autarquia e soberania frente ao projeto neoliberal de domínio econômico, político e cultural e a continuada mercantilização de todos os âmbitos da vida.

c) A busca de novos enquadramentos do pensamento social e político, particularmente denominado de “decolonidad”, em conjunção com correntes de peso histórico na região: a teologia e a pedagogia da Libertação, a teoria da dependência, as variantes autóctones do socialismo, o campesinato, as cosmovisões dos povos originários, os movimentos populistas, a luta feminista contra o patriarcado e a luta pelos direitos da natureza, entre outras.

 

Karl Polnyi

Em termos de Polanyi, são estes processos respostas conjunturais no momento das crises de ordem econômica e política internacional, ou constituem verdadeiros “contra movimentos” que estão desafiando os projetos neoconservadores e o paradigma do pensamento único neoliberal? Nesse caso, podem, através da prática, levar à re-incorporação da economia em sociedades mais justas e democráticas? Em tal caso, pode isso propagar nas sociedades que experimentaram o desenvolvimento capitalista e hoje enfrentam problemas próprios e planetários, dando lugar a outra “grande transformação” de ordem global, a uma “alter-globalização”?

Existem riscos de que a crise global latente precipite novos deslocamentos da democracia para formas de fascismo na latino-américa ou em outras regiões do mundo? De fato, ante a insuficiência estrutural do mercado global para incluir todos os trabalhadores como assalariados dignos – a erosão das bases sociais da vida previam Marx e Polanyi – e convocados pelo slogan do Fórum Social Mundial “Outro mundo (e outra economia) é possível?” proliferam na América Latina iniciativas sócio-econômicas – desde a sociedade civil e recentemente dos governos – orientadas a gerar formas de trabalho associativo autogestionado e potencializar as formas comunitárias de raiz indígena. Que potencial de transformação têm estas tendências? Como podem defender-se as maiorias populares da administração das crises do capital global orientada pelos interesses dos países centrais? É suficiente como impulsionar o associativismo e a redistribuição ou exigindo uma reinvenção do Estado? As agora generalizadas políticas de transferências de ingresso a indivíduos e famílias – que ampliam a redistribuição, um conceito central em Polanyi – devem converter-se em um novo cidadão ao ingresso mínimo reduzindo assim a indigência e a pobreza?

Pode alcançar assim uma sociedade estruturalmente justa sem revolucionar as relações entre estado, economia e sociedade, e em particular os modelos sócio-produtivos e as estruturas concentradas de poder econômico?

A crise ecológica planetária – a erosão das bases naturais da vida que também previram Marx e Polanyi – produz uma multiplicidade de movimentos, desde locais a globais, em defesa dos equilíbrios perdidos ante as forças de mercado global? É possível incluir esta problemática planetária de largo período nas agendas de curto prazo eleitoral dos governos ou das lutas sociais pela sobrevivência? Descartada a possibilidade do crescimento ilimitado (que preocupava a Polanyi), qual o papel dos movimentos trans-classistas por um consumo responsável?

Independente da nomenclatura – economia social, economia solidária, economia comunitária, economia popular, economia social e solidária, para enumerar somente algumas – têm surgido novas iniciativas no Norte e no Sul. Têm o mesmo alcance no centro e na periferia? Que papel joga nesta planificação e a reconstrução de mercados nacionais ou regionais nesta época de globalização (maior autarquia, como propõe o lema de soberania alimentar)? É possível que se ampliem as novas formas de comércio justo (verdadeiramente não mercantilizado) e de reciprocidade a nível internacional? Que propostas de convergência e complementaridade são plausíveis entre os movimentos por outra economia no Norte e no Sul?

A inspiração e a profundidade do pensamento de Karl Polanyi para encarar estas questões são cada vez mais reconhecidas pelos estudiosos de todas as disciplinas. Ao se realizar na América Latina, este simpósio objetiva convocar a encarar também outras questões relevantes para os estudiosos do pensamento de Karl Polanyi:

Por que na sua reconstrução do processo de surgimento do mercado e o capitalismo Polanyi não incluiu o processo de colonização da América e a co-constituição da América e Europa que hoje enfatiza o pensamento não colonial? Por que Polanyi não mostrou interesse pela temática do desenvolvimento, questão que durante o século XX foi levantada como sentido da transformação social nesta região?

Quais resultados podem tentar combinar o enfoque dos modos de produção de Marx, muito presentes nas Ciências Sociais e históricas destas regiões, com os princípios de integração destacados por Polanyi?

Existem diferenças entre o liberalismo ao que se referia Polanyi e o neoliberalismo que confrontamos atualmente? Como é possível ler as análises de Polanyi sobre a religião em termos da Teologia da Libertação latino-americana? Como é possível ler as análises de Polanyi sobre o corporativismo em relação à estrutura atual das sociedades latino-americanas? Como comparar as análises que fizera Polanyi sobre as crises do sistema capitalista mundial com a crise global atual, em particular no que faz o sistema inter-estatal?

Do mesmo modo como em todas as conferências internacionais Karl Polanyi, aceitar-se-ão trabalhos sobre a história das idéias, sobre a vida e a obra de Karl Polanyi, assim como trabalhos dos acadêmicos e/ou profissionais que demonstrem a relevância de seu pensamento.

Os resumos para participação devem ter, no máximo, 250 palavras e ser enviados parapolanyi@alcor.concordia.ca antes do dia 15 de março de 2012.

Mais informações, acesse
: http://polanyi.concordia.ca/conf/

Comitê Organizador
Presidente de Honra: Kari Polanyi Levitt, Universidad McGill, Canadá

José Luís Coraggio, Universidad Nacional General Sarmiento, Argentina
Margie Mendell, Universidad Concordia, Canadá
Jean-Louis Laville, Conservatoire national dês arts ET métiers (CNAM, Paris), Francia
Antonio David Cattani, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil

 

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