Metrópoles da América Latina

Buenos Aires

Buenos Aires (Crédito Gobierno Buenos Aires Ciudad)

Metrópoles da América Latina: efeitos territoriais da globalização

O INCT Observatório das Metrópoles promoveu, nos dias 08 e 09 de outubro, o Seminário Internacional “Metrópoles da América Latina: Valle de México, Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires” com o propósito de debater as possibilidades de interpretação dos processos atuais dos maiores e mais importantes centros urbanos do continente e analisar suas determinações concretas, a fim de avançar sobre a teorização dos efeitos do neoliberalismo nos territórios urbanos em seu nível mais desenvolvido (metrópoles e cidades dominantes). Durante o encontro, pesquisadores do México, Argentina e Brasil debateram ainda sobre as ações de continuidade da Rede Latino Americana de Teoria Urbana.

O projeto de pesquisa comparada “As grandes metrópoles da América Latina: Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Valle do México” tem sido desenvolvido desde 2010 pelo Observatório das Metrópoles em parceria com a Universidade Autônoma Metropolitana Unidade Xochimilco (UAM-X), Departamento de Teoria e Análises, representado pelo professor Emílio Pradilla Cobos; pela Universidade de Buenos Aires (UBA), representada pelos professores Pedro Pires e Pablo Cicolella; e os núcleos São Paulo do Observatório das Metrópoles, professoras Lúcia Bógus (PUC-SP) e Suzana Pasternak (USP), e Rio de Janeiro, representado pelo coordenador do instituto Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro.

De acordo com Luiz Cesar, o estudo comparativo prevê a análise das quatro metrópoles de maior população e importância econômica do continente latino-americano, tomando como base os efeitos territoriais da globalização neoliberal em países com regimes políticos de diferentes orientações e com distintas relações com os países capitalistas hegemônicos.

O Seminário Internacional, que foi realizado na sede do IPPUR/UFRJ, teve como convidada especial a diretora emérita da CNRS/Université de Paris III e professora do Institut de Hautes Études de l’Amerique Latina, Hélène Rivière d’Arc, que proferiu a palestra com o tema “Políticas comparadas entre a Cidade do México e São Paulo”. Em seguida, foi a vez do professor Emilio Pradilla Cobos (Universidade Autónoma Metropolitana/Xochimilco) que apresentou o caso do Valle do México.

Leia “Trabalho pela divulgação da temática metropolitana”, de Hélène Rivière d’Arc.

Durante o seminário internacional, os pesquisadores debateram sobre as ações da Rede Latino Americana de Teoria Urbana que tem como proposta central o incentivo à formação de um pensamento teórico-crítico latinoamericano sobre a problemática urbana da região, promovendo desse modo o intercâmbio de conhecimentos e o desenvolvimento de estudos comparados relacionados às grandes cidades da América Latina. O INCT Observatório das Metrópoles e a Universidade Autônoma Metropolitana do México são responsáveis pela coordenação colegiada da Rede, que conta ainda com pesquisadores da Argentina, Colômbia, Equador e Venezuela.

Rede Latino-Americana: perspectiva crítica

A investigação sobre os temas urbanos na América Latina teve um significativo crescimento a partir dos anos sessenta do século XX, quando se fizeram evidentes os problemas sociais e territoriais derivados do processo acelerado de urbanização impulsionado pela industrialização em substituição as importações.

Com o advento do pós-modernismo e da globalização neoliberal, prosperaram na investigação urbana e regional latinoamericana duas tendências de natureza diversa: de um lado, a fragmentação contínua e sucessiva dos campos da teoria e da investigação, gerando múltiplas parcelas de conhecimento carentes de relação com o todo urbano e social, e com as grandes teorias elaboradas nos países hegemônicos para explicar suas realidades que se difundem e aplicam acriticamente e se consideram as particularidades e diferenças, a todos os territórios do planeta e, em particular, do continente latinoamericano.

Ao mesmo tempo, o debate teórico que gerou grandes frutos no passado, se enfraqueceu notoriamente devido à presença esmagadora de uma única verdade neoliberal, a aceitação “realista” da impossibilidade de transformação social, ou a uma variante deformada do direito de expressão que inclui a crítica. Acentuou-se também na América Latina a presença hegemônica das pesquisas e das teorizações importadas, presentes nos editoriais e revistas, nos congressos internacionais, na docência, nas consultorias acadêmicas e políticas, a qual se pode qualificar de novo colonialismo intelectual.

“Pelo que foi visto no passado, consideramos necessário hoje empreender um esforço sistemático tendente à formação, ao desenvolvimento, à integração e à difusão de um pensamento teórico crítico que explique o urbano na América Latina a partir de nossas próprias realidades, suas generalidades e suas particularidades, tomando o que foi produzido no passado sobre a região, e mediante um debate aberto e respeitoso, plural, aplicando a ferramental da crítica aos modelos e teorias elaboradas para outras realidades e aplicadas sem critérios científicos a nossas”, explica o professor Emílio Pradilla Cobos (UAM-X) e completa: “A criação da rede pode ser um instrumento muito útil neste processo, ao estabelecer uma comunicação plural, permanente e duradoura entre aqueles que a integram, em termos de experiências, processos de investigação e resultados do trabalho”.

Para o coordenador do Observatório das Metrópoles, Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, a construção de uma teoria urbana da América Latina passa por três atitudes possíveis: a primeira, política; a segunda é epistemológica e a terceira, teórica. “A atitude política significa empreender uma sociologia crítica da circulação internacional e assimétrica das ideias e dos ideais dos países do Norte para o Sul, com o objetivo de entender os mecanismos, instituições e processos pelos quais, no campo do planejamento urbano, os problemas de pesquisa, categorias e conceitos são exportados e absorvidos como naturalmente universais. Outra dimensão da atitude política é ter como referência um projeto utópico, pois não há teoria que não esteja dialogando, de maneira implícita ou explícita, com outro tipo de sociedade”, afirma.

Dentre os objetivos gerais da rede, merecem destaque a) incentivar a formação de um pensamento teórico crítico latino-americano sobre a problemática urbana da região – realidade com suas diferenças e contradições em relação ao pensamento hegemônico; b) incentivar a pesquisa, a docência e o intercâmbio de pesquisadores para a produção de trabalhos originais sobre teoria urbana; c) estabelecer relações de intercâmbio para formação do pensamento crítico sobre o tema em outras regiões do mundo; d) apoiar e promover a realização de investigações e teses de pós-graduação que façam abordagens comparativas dos problemas territoriais em diferentes países da América Latina; e e) promover a igualdade, a equidade e a reciprocidade dos intercâmbios científicos no campo da teoria urbana, com os chamados países hegemônicos.

A rede terá, durante o período 2011-2013, uma coordenação colegiada formada pelos professores Blanca R. Ramírez e Emílio Pradilla Cobos (UAM-Xochimilco) e Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro (IPPUR/UFRJ). Além disso, contará com um Comitê Científico integrado por Fernando Carrión (FLACSO/Equador), Alberto Lovera (UCV/ Venezuela), Pedro Pires (UBA/Argentina), Samuel Jaramillo (UA/Colômbia) e Emilio Duhau (México).

 

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