Vanessa Marx¹
Paulo Soares²

Em nossas cidades estamos vivendo um processo crescente de mobilização das mulheres, dos negros e negras e indígenas nas ruas e nas redes sociais clamando por justiça, denunciando situações de violência e desenvolvendo novas formas de fazer política através de candidaturas coletivas com olhar e respeito à diversidade. Por outro lado, vemos um crescimento da violência racista e contra as mulheres, o avanço do conservadorismo e um retrocesso com a perda de direitos adquiridos, principalmente em relação a autonomia do corpo e direitos sobre ele. Negras e negros, à medida que reivindicam e ganham visibilidade e representatividade, enfrentam situações de racismo nos espaços públicos e profissionais.

O movimento feminista tem sido fundamental para ressaltar a importância das mulheres no mundo, para que estas pudessem ter direito ao voto, que temas fossem abordados a partir de um olhar interseccional e para que a violência contra a mulher se tornasse um tema público. A greve internacional das mulheres no dia 8 de março vem sendo um marco importante de reivindicação e as manifestações em torno ao movimento “Ni una Menos” são alguns exemplos de ações de articulação internacional das mulheres. As juventudes vêm inovando nas formas de ativismo e necessitamos escutá-las e compreender suas reivindicações.

Por isto é fundamental entender o momento histórico que estamos vivendo e pensar de modo coletivo uma agenda antirracista e das mulheres na cidade. Com relação aos movimentos antirracistas, as mobilizações ocorridas em maio deste ano nos Estados Unidos e o crescimento do movimento “Black Lives Matter” tiveram repercussão mundial, inclusive em nosso país. É grande a mobilização de negros e negras contra a violência policial no espaço público e nos territórios da periferia, bem como por respeito à sua presença em espaços anteriormente de privilégio branco, como os meios de comunicação, a universidade e posições mais elevadas (de gerência e gestão) na hierarquia da divisão social do trabalho.

Estes temas importam! Nas eleições municipais deste ano tivemos um recorde de candidaturas de mulheres e pela primeira vez mais negros que brancos entre os candidatos. Por outro lado, no âmbito local, podemos pensar a partir da política de proximidade nas transformações e formulação de políticas públicas que contemplem o olhar das mulheres, das/dos indígenas, das/dos negras/negros e da população LGBTQ+ sobre a cidade.

Pensar a relação entre mulheres e cidades é fundamental para inovar nas políticas públicas urbanas, principalmente em temas como a segurança destas no espaço público e o direito a circular pela cidade de forma segura seja caminhando, em bicicleta ou nos transportes públicos. Redes nacionais que refletem sobre uma agenda urbana popular para o país, como o BR Cidades, vêm trabalhando neste sentido e suas agendas nacional e local abordam a necessidade de uma cidade pela vida e pelo direito das mulheres reafirmando políticas de igualdade de gênero, participação das mulheres nas instâncias de formulação, planejamento e execução da política urbana, nas políticas de combate à violência contra mulher, entre outros.

Marcha Mundial das Mulheres. Reprodução: Brasil de Fato

Para esta rede uma cidade antirracista consiste em pensar regularização fundiária dos territórios indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais, no combate ao controle dos corpos e à ação do Estado contra a vida e a participação efetiva dos negros e populações tradicionais nas instâncias de planejamento, controle e gestão da política urbana, combatendo todas as formas de segregação étnica e racial.

Por isto, em Porto Alegre, com a nova composição e diversidade na Câmara dos Vereadores, temos a oportunidade de pensar e refletir sobre estes temas pois 53,6% da população são mulheres, frente a 46,9% de homens, segundo o ObservaPOA. Já negros e indígenas compõem mais de 20% da população, mas apresentam os piores indicadores em termos de escolaridade, emprego e violência urbana. Igualmente, os bairros de residência destas populações são os menos privilegiados em termos de infraestrutura, serviços sociais, espaços de lazer, empregos e no acesso à cidade e na mobilidade urbana. Como exemplo temos os bairros com maior percentual de negros na população: Bom Jesus (40,7%), Mário Quintana (38,6%) e Restinga (38,5%), os quais também estão entre os de menor renda média. Além do mais, a cidade apresenta em seu tecido urbano territórios tradicionais específicos, como quilombos urbanos e aldeias indígenas, os quais merecem toda a nossa atenção para seu reconhecimento, preservação e inclusão na política urbana e nas políticas públicas do município.

Quando nos referimos a uma cidade inclusiva, para todas e todos, esta deve contemplar a diversidade presente na cidade em seus aspectos sociais, culturais, étnicos e de gênero. Esta inclusão se dá na relação entre os aspectos locais e as condicionantes nacionais e internacionais, como a precarização do trabalho, as mobilizações sociais e os impactos socioeconômicos da pandemia. Também os espaços de poder da cidade (presença nos poderes executivo e legislativo, secretarias, conselhos) devem ser ocupados por mulheres, negras/negros e indígenas.

Se queremos uma cidade para mulheres e antirracista esta deverá incorporar na sua gestão participativa a paridade de gênero e a diversidade étnico-racial. Neste sentido é fundamental sermos propositivos para reinventar as agendas urbanas e as políticas públicas da cidade para os próximos anos de forma solidária e compartilhada.

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¹ Professora do Departamento e Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS. Coordena o Grupo de Pesquisa Sociologia Urbana e Internacionalização das Cidades (GPSUIC) e o projeto de extensão Mulheres e Cidades. É pesquisadora do Observatório das Metrópoles e integrante do BrCidades Núcleo Porto Alegre.

² Professor do Departamento e do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS e pesquisador do LABES – Laboratório do Espaço Social (Geografia/UFRGS). Também é professor-visitante na PUC-Chile e coordenador do Observatório das Metrópoles Núcleo Porto Alegre.

*Artigo publicado originalmente no site Matinal Jornalismo.