Bárbara Martins*
Ainda contagiados pela energia da renovação do ano-novo, os brasileiros se preparam para os festejos carnavalescos. Essa, que é a maior festa popular do país, capaz de mobilizar todo o território nacional por quatro dias, teve sua gênese no espaço urbano e passou por diversas modificações, adaptando-se às mudanças impostas pelas dinâmicas de urbanização que, desde o início, limitaram o acesso à cidade formal para uma parcela significativa da população. O processo resultou em espaços marcados pela segregação socioespacial, resultado de processos históricos de exclusão social e, ao mesmo tempo, contribui para perpetuá-los. Na raiz de tudo, está a empreitada colonizadora, responsável por erguer, sobre alicerces sólidos e duráveis, barreiras físicas e simbólicas que, até hoje, são difíceis de transpor, cerceando o direito de circular e usufruir da cidade e das oportunidades que ela oferece.
Diante de um regime fortemente marcado pela violência exploradora daqueles que não se adequam ao padrão, é nas brechas que nascem as resistências: diferentes formas encontradas pelos povos originários e pelos povos escravizados para reelaborar a cultura, afirmar-se enquanto sujeitos e reivindicar seu direito à identidade e à memória. E é, como afirma Lélia Gonzalez¹, a dinâmica cultural a grande responsável pelo estilhaçamento de classificações impostas de cima para baixo.

Carnaval de Campina Grande (PB), março de 2025. Acervo Pessoal.
Ainda que, com o passar do tempo, fossem necessárias adaptações e adequações, o carnaval segue com seu potencial de ressignificar o mundo, a sociedade e, é claro, o espaço urbano. E é justamente por esse aspecto que o carnaval, assim como a cidade, está em disputa. A produção capitalista do espaço não consegue admitir formas alternativas de ocupar o espaço público que não estejam dentro da lógica consumista e produtivista. Mas o carnaval vira essa lógica do avesso: o tempo é outro, é o do compasso das orquestras de frevo, dos blocos líricos, das escolas de samba, dos maracatus. Como parte de uma multidão, nossos corpos dançantes brincam, festejam, fazem estripulias que modificam hierarquias territoriais enquanto ocupamos as ruas — depois da Quarta-feira de Cinzas, estas mesmas ruas voltam a ser simbolicamente monitoradas e ocupadas pelos veículos motorizados. Aí, então, nos resta apenas uma pequena parcela do espaço público onde nos é permitido circular. Circular, apenas, sem a possibilidade de permanecer, criar laços, fazer trocas.
O sistema capitalista exige de todas as pessoas o esgarçamento do seu potencial físico e subjetivo e, nessa perspectiva, impõe-lhes o cansaço e a obediência. Para disciplinar e controlar corpos, é imprescindível controlar o espaço. Tais propósitos justificam as constantes empreitadas do mercado para se apropriar do espaço público e transformar a festa em mercadoria. Em consonância, apropriadas dos aparatos institucionais, as elites buscam a distinção social consumindo os espaços exclusivos da festa como novas formas de reafirmar o seu poder. O carnaval, por sua vez, é vítima e reflexo desse processo de mercantilização do espaço. A privatização da folia, o crescimento dos camarotes, o aumento dos day use, a falta de espaço e incentivo financeiro para os blocos, troças e agremiações populares ocuparem as ruas — tudo isso fortalece as tentativas de destruir a cidade enquanto bem comum.
Mas a cultura popular é “madeira de lei que cupim não rói”², e nos ensina que é necessário e urgente reencantar o mundo para transformá-lo. Ocupar as ruas, em qualquer ocasião, é um posicionamento político importante nessa direção. As encruzilhadas, guardadas pelos seres encantados das ruas, são os lugares do encontro, da troca, da comunicação, da mobilização; é “onde se encontram as possibilidades de reencantar o mundo”³. As tentativas de restringir, cercar, privatizar o espaço urbano são estratégias de desencanto, contra as quais devemos constantemente lutar.

Baque Mulher Campina Grande ocupando as ruas do centro da cidade no carnaval de 2025. Foto: Adrielle Amorim.
A brincadeira, as festas e os sonhos nos motivam a nos reerguer dos destroços, atuar nas brechas e ir ocupando os espaços que são nossos por direito. E, quando a terça-feira de carnaval vai se aproximando do fim, renasce no coração dos foliões o desejo de que fosse sempre carnaval. Talvez porque, na folia, vislumbramos o reencantamento do mundo e desejamos que esse estado se perpetue. E, se reencantar o mundo quer dizer reatar nossos laços de comunidade e reivindicar o direito de poder decidir coletivamente sobre os nossos destinos, então a reforma urbana é o nosso estandarte, a bússola que aponta em direção à construção de cidades justas e democráticas, construídas de acordo com nossos anseios.
O carnaval nos ensina que é preciso teimosia e ousadia para transgredir as normas impostas e colocar nosso bloco na rua. Que, passados os dias de sonho e de folia, retornemos renovados aos nossos afazeres e às nossas lutas, sem deixar esmaecer o espírito transgressor, necessário para enfrentar os embates e as constantes ameaças às cidades para todas as pessoas e aos demais bens comuns.
* Bárbara Martins é pesquisadora do Núcleo Paraíba do INCT Observatório das Metrópoles e batuqueira na filial de Campina Grande do Movimento de Empoderamento Feminino Baque Mulher, que nasceu na Comunidade do Bode, no bairro do Pina, no Recife, idealizado pela Mestra Joana Cavalcante, primeira e única mulher à frente de uma Nação de Maracatu, o Encanto do Pina.
Fundado em 2008, o grupo é composto exclusivamente por mulheres e conta com filiais espalhadas por todo o Brasil e também no exterior. Ao longo do ano, batuqueiras de diferentes regiões do país se reúnem para ensaiar e ocupar espaços públicos por meio do maracatu, utilizando a força dessa expressão cultural para combater o machismo e o racismo, além de promover o empoderamento feminino. Movidas pelos fundamentos do Baque Mulher e sob a orientação de Mestra Joana, elas se fortalecem para realizar ações transformadoras em suas próprias comunidades, cidades e áreas de atuação.
¹ GONZALEZ, Lélia. Festas populares no Brasil. Boitempo Editorial, 2024.
² Verso da famosa composição de Capiba.
³ RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Mórula editorial, 2019.














