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Por Claudia Monteiro Fernandes*

No Carnaval de Salvador de 2026, a banda Baiana System gerou polêmica ao ser anunciada como atração do luxuoso Camarote Salvador, onde se apresentou no dia 12 de fevereiro ao lado de Lazzo Matumbi. A participação do grupo, conhecido por defender a democratização da festa e as “pipocas” de rua, foi vista por fãs como uma contradição direta à mensagem da música “Lucro (Descomprimindo)”, que critica a especulação imobiliária e o sistema voltado ao ganho financeiro. A ironia é reforçada pelo fato de o camarote, cujos ingressos custam até R$ 4.100, erguer estruturas e um palco na areia, o que bate de frente com o verso icônico da canção: “Tire as construções da minha praia…”. Enquanto alguns criticam o que chamam de rendição à “máquina de lucro”, outros veem a escolha como uma oportunidade de levar o discurso político da banda para a elite soteropolitana e aos visitantes ocasionais.

Foto: Divulgação Camarote Salvador.

O camarote carnavalesco não é uma simples “varanda climatizada” voltada para o mar. Está localizado no circuito momesco mais famoso da capital, entre os bairros nobres da Barra e de Ondina, com mais de 12.000m² de estrutura, incluindo dois palcos com vista para o mar, um deles sobre as areias da praia de Ondina. Isso mesmo, literalmente uma “construção” na nossa praia. Circular nas proximidades é um verdadeiro desafio, uma semana antes, durante e uma semana após o Carnaval.

Além do mencionado espaço, existem outros tantos; o espaço “exclusivo” na folia não se limita a um só camarote vip à beira do mar, cada uma delas com diferentes estratégias de exclusividade para seus participantes. Uma outra estrutura, que oferece “glamour” à festa e usa este nome, instalou uma passarela para garantir a “passagem segura” de seus convidados e frequentadores, sem a necessidade de atravessar em meio à multidão que lotará as ruas. A passarela – batizada como “passarela do apartheid” – foi autorizada pela prefeitura e construída em área pública classificada como Sistema de Áreas de Valor Ambiental e Cultural (Savam), enquadrada como Área de Proteção Cultural e Paisagística (APCP) do município e também como Área de Preservação Permanente (APP) – o Morro do Ipiranga, em Ondina. No ano de 2024, essa construção foi impedida de ser construída, mas em 2025 ela está lá.

Passarela entre o Morro do Ipiranga e camarote no circuito de Ondina. Foto: Mundo Negro (Reprodução).

Às vésperas do início do Carnaval, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU-BA) protocolou petição que resultou na interdição pela Justiça Federal na Bahia, que reconheceu a legitimidade do CAU-BA para atuar na defesa do ordenamento urbano e do patrimônio paisagístico, cultural e ambiental. A decisão judicial determinou a suspensão imediata de qualquer atividade, obra, montagem ou uso da passarela, além de proibir novas intervenções físicas no local. Em caso de descumprimento, foi fixada multa diária de R$ 50 mil, limitada inicialmente a R$ 1 milhão.

Tanto as construções na praia como a passarela têm um significado simbólico muito importante: elas são um retrato gritante da segregação espacial e da desigualdade, estruturais em uma metrópole periférica, desigual e refém de um processo cada vez mais evidente de transformação da cidade em mercadoria, geralmente invisíveis nas transmissões midiáticas nacionais deste período.

O Núcleo Salvador do INCT Observatório das Metrópoles vem acompanhando, há mais de 20 anos, os processos de mercantilização do espaço urbano na metrópole, assim como as contradições entre a “fama” de cidade da festa e da alegria e as profundas desigualdades sociais e econômicas da capital baiana. As atividades de pesquisa realizadas são interdisciplinares, de forma a melhor abordar a diversidade da realidade metropolitana e das múltiplas desigualdades regionais.

Sem negar as belezas naturais e a alegria festiva tradicional de Salvador, a realidade cotidiana não pode ser romantizada. Um dos primeiros resultados do Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2023, trouxe como destaque a redução da população residente em Salvador em 9,6% entre 2010 e 2022 – a capital foi a que mais perdeu moradores no período no Brasil. Mais recentemente, em dezembro de 2025, uma nova divulgação de resultados do Censo 2022 aconteceu na capital baiana, e revelou que 42,7% da população de Salvador, totalizando 1.370.262 pessoas, vive em favelas e comunidades urbanas, posicionando a capital como a terceira mais favelizada do Brasil. A cidade concentra 45,8% das 572 comunidades mapeadas em todo o estado da Bahia.

Vale anotar que o IBGE define favelas e comunidades urbanas como territórios populares originados de estratégias autônomas de moradia, caracterizados por formas de ocupação precárias, insegurança jurídica da posse, ausência ou precariedade de serviços públicos essenciais (água, esgoto, luz, lixo), além de arruamento e edificações não padronizados. O termo substituiu “aglomerados subnormais” para refletir o autorreconhecimento dos moradores. Já no Censo anterior, de 2010, o Núcleo Salvador mapeou que 56,5% da população vivia nas chamadas “ZEIS” (Zonas Especiais de Interesse Social), 234 áreas delimitadas no Plano Diretor municipal de 2016, destinadas majoritariamente à moradia para população de baixa renda – e ainda não regularizadas. Ou seja, sem garantia de regularização dos terrenos nem de urbanização, que incluiria infraestrutura e equipamentos como escolas, posto de saúde, espaços de lazer e cultura.

Duas das 20 maiores favelas do Brasil estão em Salvador: Beiru/Tancredo Neves e Pernambués. Talvez não seja coincidência que esses territórios sejam vizinhos a uma área tradicionalmente reconhecida como Quilombo do Cabula, com população majoritariamente negra e de baixa renda. Também com base no Censo 2022, Salvador é a capital com a maior população quilombola do país, com quase 16 mil pessoas autodeclaradas quilombolas vivendo na capital baiana. Essa é a primeira vez em que o grupo pôde se autoidentificar em um censo.

Um dado já conhecido e confirmado no Censo 2022 do IBGE foi que Salvador é a capital com a maior proporção de pessoas negras no Brasil, com 83,2% de sua população autodeclarada preta ou parda. Em números absolutos, isso representa mais de 2 milhões de pessoas (cerca de 825 mil pretos e a maioria pardos), consolidando a cidade como uma das metrópoles com maior população negra fora da África. Estudos do Núcleo Salvador do Observatório indicam que a maioria das pessoas negras vivem no chamado “miolo” da cidade, bem longe da Barra, da Ondina ou mesmo da Orla Atlântica. Muito jovens desses territórios nem conhecem as praias tão veiculadas nas transmissões midiáticas durante o Carnaval.

Foto: Antônio Cruz (Agência Brasil).

Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 manteve a violência do estado da Bahia em evidência nacional e, entre as 10 cidades com mais de 100 mil habitantes mais violentas do país, cinco são cidades baianas e duas delas estão na região metropolitana: Camaçari e Simões Filho. Ainda que, felizmente, os indicadores tenham melhorado em relação ao ano anterior, com redução de 10,8%, a capital é a mais violenta do país, com taxa de mortes violentas intencionais (MVI) de 52 por 100 mil habitantes em 2024 – a média das capitais foi de 20,4 por 100 mil.

Também é conhecido que Salvador e Região Metropolitana lideram historicamente as listas de maiores taxas de desemprego entre as metrópoles brasileiras. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, a taxa anual de desocupação no Brasil caiu para 5,6% em 2025, o menor nível da série histórica iniciada em 2012 pelo IBGE. Este resultado representa um recuo de 1,0 ponto percentual frente a 2024 (6,6%). A expansão dos serviços sustentou a queda no desemprego, que atingiu o menor patamar histórico em diversos estados. No 3º trimestre de 2025,  a desocupação caiu em 18 das 27 unidades da federação. A Região Metropolitana de Salvador também apresentou uma redução na taxa de desocupação trimestral – de 13,1% em 2024 para 9,7% em 2025. Mas mantém a liderança histórica entre as metrópoles acompanhadas e é quase o dobro da média nacional.

A precariedade nas condições de vida dos soteropolitanos é, portanto, a regra, seja no período de Carnaval ou fora dele. Em 2026, dois marcos importantes serão oportunidades para pensar essa segregação e mercantilização do espaço urbano na cidade-metrópole da Bahia: a revisão do PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) e as eleições estaduais. Desde meados de 2025, o Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) vem liderando o Observatório do PDDU, que agrega a sociedade civil organizada e as universidades, inclusive o Observatório das Metrópoles, para acompanhar criticamente e cobrar transparência no processo de revisão do plano, buscando garantir a participação popular cidadã de fato.

E que as praias e as vias da cidade sejam pensadas respeitando a preservação ambiental, a justiça territorial, a participação cidadã e o direito à cidade, para que todos consigam respirar.


* Claudia Monteiro Fernandes é pesquisadora do Núcleo Salvador do INCT Observatório das Metrópoles, economista, doutora em ciências sociais e professora da UCSal. Perfis: @om.nucleosalvador e @claudia.monteiro.pro

Artigo publicado originalmente no Brasil de Fato BA, em 10 de fevereiro de 2026.