Dimensões da gentrificação contemporânea nas operações urbanas em São Paulo

By 03/12/2014janeiro 26th, 2018Artigos Científicos

Neste artigo Marina Toneli Siqueira busca desenvolver um modelo analítico para o estudo de processos de gentrificação, utilizando como caso ilustrativo de sua aplicabilidade as operações urbanas em São Paulo. Tal modelo baseia-se em três dimensões 1) produção do espaço gentrificável; 2) elitização social com expulsão de grupos vulneráveis; e, 3) transformação da paisagem construída. A análise mostra que essas dimensões são mediadas por estruturas locais e, nestes casos, contextualizadas em projetos urbanísticos individuais.

O artigo “Entre o fundamental e o contingente: dimensões da gentrificação contemporânea nas operações urbanas em São Paulo”, de Marina Toneli Siqueira,  é um dos destaques do Dossiê “Desenvolvimento desigual e Gentrificação na cidade contemporânea”, da Revista Cadernos Metrópole nº 32.

Abstract

Opposing the direct importation of theories, this paper develops an analytical model for the study of gentrification that encompasses both its generalization as the main policy of neoliberal urbanism and its location in specific urban contexts. This analytical model is based on three necessary dimensions that define the process: 1) production of gentrifiable space; 2) socio-economic upgrading with displacement of vulnerable groups; 3) built landscape transformation. The study of urban operations in São Paulo demonstrates that these fundamental dimensions are mediated by local structures and, in these cases, they are contextualized in individualized urban projects. This paper, thus, explores the multiple scales of gentrification promotion, and emphasizes that forms of unequal space production and resistance to them are also locally produced.

Keywords: gentrification; neoliberalism; postmodernity; urban operations; São Paulo.

 

Introdução

Marina Toneli Siqueira

Gentrificação não é um conceito desconhecido no Brasil. De fato, a própria presença deste volume demonstra a sua crescente inserção nos estudos urbanos brasileiros. O conceito tem sido utilizado na sua acepção original em inglês (gentrification), no seu neologismo (gentrificação) ou tem sido traduzido em construções linguísticas

que enfatizam a transformação socioeconômica característica do processo (enobrecimento urbano). Entretanto, grande parte destes estudos não tem lidado diretamente com os problemas teóricos decorrentes da importação do conceito para explicar um contexto urbano diferente daquele no qual ele foi originado. Por outro lado, mesmo nos contextos originais ou nos casos clássicos de gentrificação na Inglaterra e nos Estados Unidos, a teoria tem gerado acirrado debate sobre sua aplicabilidade.

Neste sentido, argumenta-se que a sua expansão ou generalização teria conduzido à falta de precisão conceitual. Este artigo, entretanto, enfatiza a necessidade de contextualizar o nosso entendimento sobre gentrificação, considerando que a interação entre padrões locais e globais pode alterar o processo temporal e espacialmente.

Desta forma, realiza-se uma defesa do conceito de gentrificação sem perder de vista a necessidade de elaborar um modelo de análise que seja ao mesmo tempo rigoroso e flexível. Isto é, trata-se de um esforço para que o mesmo não perca sua capacidade analítica, mas que também auxilie a explicar dados empíricos que podem ser contextuais e específicos.

Este artigo tem como objetivo, portanto, desenvolver um modelo analítico para o estudo de processos de gentrificação, utilizando como caso ilustrativo de sua aplicabilidade as operações urbanas em São Paulo. Gentrificação, de forma geral, é definida como o processo de redesenvolvimento urbano que acarreta na elitização

socioespacial. Indo de encontro à importação direta de teorias, argumenta-se que existem dimensões necessárias e definidoras do processo que não são, todavia, suficientes para compreender o seu funcionamento em cada contexto urbano. Portanto, embora elementos fundamentais estejam presentes em todos os casos de gentrificação, ainda existem dimensões contingentes (ou estruturas mediadoras) que explicam as diferenças que ocorrem localmente.

Neste sentido, na primeira parte deste artigo serão discutidas as dificuldades do uso da teoria clássica da gentrificação no contexto brasileiro. Em especial, será demonstrado como, por um lado, os casos brasileiros têm desafiado uma definição restritiva do conceito enquanto, por outro lado, os estudos urbanos fora do país

tem expandido a teoria para considerar transformações do processo. Na segunda parte, será desenvolvida uma definição da gentrificação contemporânea que a inclui nas estratégias do urbanismo neoliberal e na experiência urbana pós-moderna. De forma a ilustrar este modelo analítico, na terceira e quarta partes aqueles elementos necessários e definidores do processo serão explorados tendo em vista a principal política brasileira de redesenvolvimento urbano, as Operações Urbanas Consorciadas.

As operações urbanas foram escolhidas como ilustrativas da generalização de parcerias público-privadas para a valorização do solo urbano. Ao mesmo tempo, elas demonstram que aquelas dimensões fundamentais da gentrificação (se presentes) serão mediadas nacionalmente pela formalização do instrumento através do Estatuto da Cidade e localmente em um projeto específico, constituindo não somente um lugar próprio (i.e., uma geografia urbana), mas também parâmetros urbanísticos diferenciados

para cada experiência. Dessa forma, a escolha do caso leva em consideração que nem mesmo entre as operações urbanas o processo de gentrificação pode ser homogêneo. Isto sugere, portanto, que embora o modelo analítico possa e deva ser generalizado para outros casos, os achados empíricos sobre uma operação urbana em particular podem não o ser.

 

 

Para ler a versão completa do artigo “Entre o fundamental e o contingente: dimensões da gentrificação contemporânea nas operações urbanas em São Paulo”, acesse a Revista Cadernos Metrópole nº 32.

 

Última modificação em 03-12-2014