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Megaeventos e transformações urbanas

By 29/08/2012janeiro 23rd, 2018Eventos
Avenida Corrientes, Buenos Aires

Avenida Corrientes, Buenos Aires (Buenos Aires Ciudad)

Megaeventos e transformações urbanas: o ‘redescobrimento’ dos países do Sul

Se antes a população urbana se localizava principalmente nos países considerados desenvolvidos, nas últimas décadas passou a se concentrar nas cidades dos países em desenvolvimento. Um dos resultados desse processo concentrador pode ser verificado nas cidades latino-americanas com a convivência da pobreza com a riqueza, do tradicional com o moderno. É nesse contexto que surge, segundo a professora Olga Firkowski, uma nova dinâmica no processo de globalização, que por meio dos megaeventos incorpora os países do Sul na lógica de apropriação e reprodução do capital.

Com a apresentação intitulada “Processos urbanos e dinâmicas territoriais. Megaeventos e transformações urbanas: o ‘redescobrimento’ dos países do Sul”, a pesquisadora Olga Firkowski, coordenadora do Núcleo Curitiba do Observatório das Metrópoles, participou no dia 09 de agosto como expositora da mesa-redonda “Procesos urbanos y dinâmicas territoriales”, na 9ª Bienal del Coloquio de Transformaciones Territoriales, em San Miguel de Tucumán (Argentina). O evento, organizado pelo Comitê de Desenvolvimento Regional da Associação das Universidades do Grupo Montevideo (AUGM), buscava discutir os traços e as incertezas nos processos de desenvolvimento territorial.

Olga Fikowski iniciou sua fala demonstrando que as grandes cidades, com mais de um milhão de habitantes, vem crescendo, estando distribuídas de modo desigual pelo planeta. Se antes a população urbana se localizava principalmente nos países considerados desenvolvidos, nas últimas décadas passou a se concentrar nas cidades dos países em desenvolvimento.

Um dos resultados desse processo concentrador verificado nas cidades latino-americanas é aquele que confronta o tempo lento com o tempo rápido, os hegemonizados com os hegemônicos. Tal situação acarreta a existência de realidades e paisagens urbanas similares em cidades de países distintos: a convivência da pobreza com a riqueza, do tradicional com o moderno, no precário com o luxuoso.

É nesse contexto, segundo a pesquisadora, que surge uma nova dinâmica no processo de globalização, que por meio dos megaeventos incorpora os países do Sul na lógica de apropriação e reprodução do capital. Nesse sentido, o Brasil sediará nos próximos anos, dois dos mais importantes megaeventos esportivos, a Copa do Mundo de Futebol 2014 e os Jogos Olímpicos de Verão de 2016.

Embora seja nas últimas décadas que ocorra maior apelo aos megaeventos como modo de reprodução do capital, a relação entre cidade e os grandes eventos já é antiga, iniciando-se com as Exposições Universais, ainda no século XIX. Olga Firkowski citou como herança a Torre Eiffel, construída inicialmente para ser o arco de entrada da Exposição Universal de 1889, e que depois se tornou símbolo de Paris.

De acordo com a pesquisadora, a transformação da relação entre cidade e os grandes eventos advém das mudanças ocorridas nos vários âmbitos da sociedade, tais como a intensificação da internacionalização e emergência da globalização, o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação e ainda o papel que a cidade passa a desempenhar em um contexto de competição acirrada, passando a ser um local de visibilidade internacional e responsável pela atração de capitais. A atualidade inserida no momento de desenvolvimento do capital cognitivo (Ascher, 2010) e na Terceira Revolução Industrial (Ascher, 2004), altera o sentido da cidade e sua própria materialidade. Concomitantemente passa a se desenvolver um duplo processo, o de homogeneização e o de diferenciação. A homogeneização através dos mesmos atores econômicos em todos os pontos do planeta e a diferenciação pela concorrência interurbana que cresce e se torna cada vez mais aguda.

Nessa perspectiva, Olga Firkowski argumentou que os megaeventos relacionam-se diretamente com a comercialização da cidade, afinal, são direcionados especificamente para o mercado do turismo internacional. Além disso, são adjetivados como mega em virtude da grandiosidade do público, do mercado alvo, da cobertura televisiva, da construção de instalações e do nível de envolvimento financeiro do setor público (Hall, 1992).

As demandas dos investimentos para eventos dessa magnitude conflitam com as urgências da sociedade local (infraestrutura básica, saúde, educação etc.). Além disso, como citou a pesquisadora, a própria arena de decisões deixa de ser local, pois passam a estar circunscritas em outros níveis, aqueles da reprodução ampliada do capital.

É nesse sentido que os megaeventos são vistos como oportunidades de grandes negócios para um grupo seleto de empresas, tais como aquelas que são parceiras da FIFA e que de um modo geral, pouco se relacionam com o desenvolvimento do futebol enquanto esporte. Olga Firkowski demonstrou ainda que as exigências de estrutura física dos estádios são atendidas do mesmo modo por empresas estrangeiras, como as que constroem as coberturas das arenas, por exemplo.

Do ponto de vista dos impactos que ocorrerão em decorrência da realização dos jogos da Copa do Mundo de 2014 nas cidades-sede, a pesquisadora destacou: (i) a delimitação da zona de exclusão que pode atingir até dois quilômetros de raio a partir dos estádios, sendo proibida nesta área a propaganda e comercialização de produtos que não são de empresas patrocinadoras do evento, além da própria restrição de circulação em determinados pontos; (ii) o Estado de Exceção imposto através da aprovação da Lei Geral da Copa que suprime durante o período de realização do mundial alguns direitos conquistados pela população brasileira.

Para finalizar sua arguição, Olga Firkowski argumentou que as novas dinâmicas advindas com a realização de megaeventos em países do Sul não somente alteram as cidades, mas também criam novas desigualdades.

 

Com a colaboração de Patricia Baliski – bolsista de Extensão no País CNPq pelo Observatório das Metrópoles / Laboratório de Dinâmicas Metropolitanas (LaDiMe/UFPR)