Vista aérea de Belo Horizonte

A geografia e a arquitetura constituem duas áreas do conhecimento, cujos respectivos corpos disciplinares se debruçam, aparentemente, sobre o mesmo objeto – o espaço. Esse é o ponto de partida deste artigo para a Revista Cadernos Metrópoles nº 37 que traz o dossiê especial “Planejamento Urbano e Regional: percursos e desafios”. Para tanto, na primeira parte, ressalta-se que, apenas a partir da década de 1970, o conceito de espaço se tornou alvo de análise crítica explícita por parte dos geógrafos, e anunciam-se possíveis diferenciações desse conceito, em confronto com a formulação teórica do espaço arquitetônico. Na segunda parte, indicam-se as especificidades teórico-metodológicas que definem o espaço arquitetural. Espera-se que as reflexões ora apresentadas contribuam para a minimização de possíveis confusões epistemológicas.

O artigo O espaço na geografia e o espaço da arquitetura: reflexões epistemológicasassinado por Lucia Leitão e Norma Lacerda, é um dos destaques da edição 37 da Revista Cadernos Metrópole.

Abstract

Geography and architecture are two areas of knowledge whose respective subject corpora apparently focus on the same object – space. This is the starting point of these theoretical notes, the objective of which is to draw attention to certain epistemological distinctions between the above- mentioned areas. Therefore, in the first part, it is noted that it was only in the 1970s that the concept of space became a key concept of geography. Moreover, possible differentiations of this concept are announced in comparison with the theoretical formulation of architectonic space. In the second part, the theoretical and methodological specificities that define architectural space are indicated. It is hoped that the reflections presented in this article will contribute to minimize possible instances of epistemological confusion.

INTRODUÇÃO

Estas notas resultaram da percepção da ocorrência de certa “confusão” conceitual, relativamente ao emprego do termo espaço, quando se trata de refletir à luz da geografia ou da arquitetura. Essa “confusão” vem-se manifestando, com frequência, na produção acadêmica recente, de modo especial em dissertações e teses apresentadas em programas de pós-graduação, ao se debruçarem sobre esses dois campos disciplinares.

Como disciplinas autônomas, pressupõe-se que cada uma delas detenha o necessário domínio de conceitos, categorias e métodos de abordagem específicos, de modo a permitir-lhes, com a necessária precisão epistemológica, a constituição do próprio objeto de investigação. Afinal, como bem anota Santana (2008, p. 1), “mesmo que várias ciências tenham o mesmo objeto material, cada uma delas tem seu exclusivo objeto formal e, portanto, a sua marca individualizadora”.

A empreitada intelectual de delimitação de marcas distintivas da geografia, em relação à arquitetura – e vice-versa –, é seguramente desafiadora e excede os limites e objetivos do presente texto. Com efeito, ela implicaria demarcar precisamente o arcabouço teórico-metodológico de cada uma dessas disciplinas, tarefa ainda inconclusa, mesmo para importantes teóricos desses dois campos do conhecimento. Nesse sentido, Milton Santos, sabidamente um dos maiores expoentes da geografia brasileira, registra, com razão, que essa disciplina se ressente de uma epistemologia claramente expressa e, à conta disso, “a própria geografia tem dificuldade para participar em um debate filosófico e interdisciplinar” (Santos, 2006, p. 28).

Talvez essa dificuldade explique parte da confusão teórica, aqui mencionada, notadamente quando a geografia “se encontra” com campos disciplinares de interfaces comuns, a exemplo da arquitetura. Por sua vez, do ponto de vista da arquitetura, no que diz respeito a lacunas ou a inconclusões teóricas – em que pesem a contribuição de tratadistas célebres e dois milênios de prática disciplinar –, é ainda recente a percepção de que o espaço é o protagonista da arquitetura (Zevi, 1977).

É, pois, nesse contexto de imprecisões teóricas que se delineiam aqui, embora de modo sucinto, especificidades teórico-metodológicas dessas duas áreas do conhecimento, cujos respectivos corpos disciplinares se debruçam, aparentemente, sobre o mesmo e único objeto – o espaço. Espera-se, com isso, contribuir para a minimização de possíveis confusões epistemológicas.

O trabalho está organizado em duas partes. Na primeira, recapitulam-se a constituição e a evolução da geografia, enquanto campo disciplinar. O intuito é mostrar que, só a partir da década de 1970 – sobretudo com a emergência da geografia crítica –, o espaço, até então objeto meramente implícito dessa disciplina, passou a ser analisado, de forma expressa e direta, na sua natureza de conceito central da atividade dos geógrafos. Na segunda parte do texto, volta-se a atenção para as especificidades teóricas e metodológicas do espaço da arquitetura.

Acesse o artigo completo O espaço na geografia e o espaço da arquitetura: reflexões epistemológicas no site da Revista Cadernos Metrópole.