Com o tema “Narrativas pós-neoliberais: interseções entre o extrativismo urbano e o movimento social“, a revista Cadernos Metrópole n.50 reúne artigos que abordam a integração entre o mercado imobiliário e a financeirização, a virada epistemológica da mobilidade e os “movimentos sociais” ativos no Brasil e em Portugal atualmente.

Organizado por Ernesto López-Morales (Universidade do Chile) e Orlando Alves dos Santos Junior (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o dossiê buscou reconhecer a diversidade cultural regional da América Latina e do Brasil. Nesse sentido, convidou os autores a investigar possíveis indícios de um presente “pós-neoliberal”, indefinível para o momento. Segundo os organizadores, a ideia de “pós-neoliberal” é uma página em branco, daí a possibilidade de observar cenários atuais e imaginar futuros prováveis.

Os organizadores partiram do pressuposto de que “a realidade de 2020 transbordou e se expressou com todo o seu monstruoso imediatismo e rastros de morte. O pior momento para imaginar claramente utopias ou distopias, mas que, tampouco, é capaz de silenciar os desejos de emancipação popular e de uma ordem social alternativa, que mobilizam o dossiê”.

Essa edição contém dezesseis artigos, sendo doze selecionados na chamada temática e quatro complementares. Abre o presente dossiê o artigo “Securitização da política pública em Belo Horizonte e redes de financeirização“, de Thiago Canettieri, que analisa a formação da coalizão que levou à empresificação da política urbana e à securitização em Belo Horizonte, uma das primeiras cidades no Brasil a adotar esse tipo de modelo de gestão urbana. O autor sugere a existência de uma forma específica de gestão da cidade baseada no desenvolvimento urbano-financeiro e ancorada nos mercados financeiros. [CLIQUE AQUI para ler]

Escrito por Erick Omena de Melo, o artigo “Financeirização, governança urbana e poder empresarial nas cidades brasileiras” observa a relação entre mercados financeiros e os setores tradicionalmente produtores do espaço urbano, o que se expressa particularmente relevante para a compreensão dos rumos tomados pelo desenvolvimento das cidades no início do século XXI. [CLIQUE AQUI para ler]

No caso da Argentina, o artigo de Marina Wertheimer, “Renovación, extractivismo urbano y conflicto ambiental en la costa norte de Buenos Aires“, analisa um caso de renovação urbana na cidade de Buenos Aires, liderada pelo setor público e pelo setor imobiliário, no marco de um regime urbano dominado por empresas privadas, desde 2004, bem como o contexto de surgimento de mobilizações sociais e da ambientalização do conflito. [CLIQUE AQUI para ler]

Em “Migrações e processos socioespaciais no Eixo Pelourinho-Santo Antônio. Salvador, Bahia“, Daniel de Albuquerque Ribeiro elucida as relações entre os processos espaciais urbanos e as migrações em uma área da cidade de Salvador, que denominamos Eixo Pelourinho-Santo Antônio (EPS). No artigo, o autor busca demonstrar que os diferentes processos espaciais urbanos, que geralmente são retratados em esquemas fechados na própria cidade, podem ser observados em uma escala mundial. [CLIQUE AQUI para ler]

Já o artigo de Lucía de Abrantes e Luciana Trimano, “Entre motivaciones y efectos. Movilidades residenciales en la Argentina contemporânea“, aborda um dos temas centrais do atual momento do desenvolvimento do capitalismo urbano, o renascimento da migração das classes média e alta abastadas em busca de um sonho de suburbanidade e o impacto que isso tem nas localidades pequenas e médias, territórios concretos que sofrem o impacto das novas modalidades de sociabilidade, das percepções temporais e dos processos identitários. [CLIQUE AQUI para ler]

Em “Impasses da urbanização e regularização fundiária. Quem tem o poder de veto?“, Jeferson Tavares, Marcel Fantin e Douglas de Almeida Silva falam dos impasses nas decisões sobre remoções e regularização fundiária a partir do papel das ações de planejamento urbano em assentamentos precários. A questão central é compreender os conflitos interescalares e os embates entre os modelos de desenvolvimento urbano e ambiental. [CLIQUE AQUI para ler]

Heitor Vianna Moura, em seu artigo “A construção de um problema público: ativismo no centro histórico de Lisboa“, oferece um estudo empírico de coletivos, associações e instituições atuantes na cidade de Lisboa e da mobilização de referências teórico-metodológicas da sociologia pragmática. O autor analisa como uma série de denúncias de casos individuais de despejos ganhou o estatuto de coletividade, tornando a luta pelo direito à habitação, no centro histórico da capital, um assunto prioritário nas agendas públicas local e nacional. [CLIQUE AQUI para ler]

Por seu lado, Luís Mendes, em “Lutas urbanas pelo direito à habitação em Lisboa em tempos de pandemia“, observa, também em Lisboa, durante o período pandêmico de COVID-19, como a ação dos movimentos sociais urbanos acirrou-se, capitalizando a visibilidade para o direito à habitação, como direito humano básico e imperativo incondicional de saúde pública, para cumprir os deveres de quarentena e de isolamento social, impostos pelo Estado de Excepção. [CLIQUE AQUI para ler]

O pacto contra violência doméstica na comunidade Menino Chorão (Campinas/SP): vitórias efêmeras“, artigo de Helena Rizzatti, analisa avanços reais do feminismo no espaço popular. O pacto, instituído na comunidade Menino Chorão, tensionou as relações sociais de poder com o enfrentamento da violência doméstica, um dos pilares da construção social de gênero. Para analisá-lo, a autora parte do processo de urbanização corporativa e interseccionalizada que reproduz as desigualdades estruturais de gênero-raça-classe. [CLIQUE AQUI para ler]

Cais José Estelita (Recife). Foto de Ytallo Barreto (2012).

Jouberte Maria Leandro Santos e Sérgio Carvalho Benício de Mello apresentam, no artigo “Um movimento social visto por dentro: a proposta contra-hegemônica do Movimento “Direitos Urbanos”“, um estudo que objetiva analisar o discurso do movimento social “Direitos Urbanos” (DUs) e compreender como esse movimento se articula para desafiar discursos hegemônicos do urbanismo moderno e promover discursos alternativos ao modelo neoliberal. [CLIQUE AQUI para ler]

Nino Rafael Medeiros Kruger, Caroline Krüger e Cristine Jaques Ribeiro, em “Um movimento contra a violação de direitos: a Estrada do Engenho resiste“, discutem a garantia do direito à moradia a partir de uma reflexão sobre uma Ação Civil Pública (ACP) voltada à remoção da comunidade da Estrada do Engenho, no município de Pelotas. Como resultado, eles identificam a construção de linhas de ação, possibilitando a desestabilização do processo, protegendo e preservando modos de habitar da comunidade local. [CLIQUE AQUI para ler]

O artigo de Lia Beatriz Teixeira Torraca, “O olhar estético do afeto: reterritorializando o Rio de Janeiro“, talvez seja a abordagem mais inovadora entre os artigos apresentados. Uma técnica para “fazer ver”, “transformar o ver em olhar” e “fazer agir sobre” através da experiência fotográfica. Uma alternativa para reimaginar a cidade sob outra perspectiva e poder reconfigurar a imagem do Rio de Janeiro e suas relações a partir da virtualização e projeção das imagens fotográficas produzidas na favela, ou seja, um recurso para reterritorializar a cidade. [CLIQUE AQUI para ler]

Por fim, a edição 50 da Revista Cadernos Metrópole contém quatro artigos complementares:

Ao final, os organizadores registram um reconhecimento especial à trajetória dos Cadernos Metrópole que comemora 50 números, tendo se consolidado como uma das principais revistas científicas no campo dos estudos urbanos e regionais, em uma perspectiva interdisciplinar, sempre trazendo temas emergentes para o debate. Também expressam agradecimento aos avaliadores convidados, que anonimamente contribuíram para a produção deste número, bem como à Raquel Cerqueira, assistente da equipe editorial da revista Cadernos Metrópole.

Revista Cadernos Metrópole surgiu em 1999 como um dos principais produtos do Observatório das Metrópoles e tem como principal objetivo difundir os resultados da análise comparativa entre as metrópoles brasileiras. A revista é produzida em parceria com a EDUC (Editora da PUC-SP). Conheça a história do nosso periódico nesse post da Scielo (clique aqui).