Xuefei Ren, durante visita recepcionada pelo Observatório das Metrópoles, em 2015. (Créditos: Pedro Bastos).

O que a China, a Índia e o Brasil têm em comum em termos de governança urbana e direitos sociais? Esse é o tema da pesquisa comparativa da professora chinesa Xuefei Ren, que foi recebida esta semana pelo Observatório das Metrópoles para seu trabalho de campo no Rio de Janeiro. Radicada nos Estados Unidos, Xuefei Ren é especialista em urbanização chinesa e trabalha como professora associada na Michigan State University. Atualmente, também vem dedicando-se a examinar o desenvolvimento urbano de assentamentos informais na Índia e no Brasil.

A escolha dos três países como foco de seus estudos tem fundamento. Xuefei alega que as diferentes magnitudes da atuação estatal nesses lugares conferem distintos impactos no desenvolvimento urbano dos mesmos. No caso do Brasil, mostrou-se interessada em verificar a influência dos megaeventos na dinâmica das favelas cariocas à luz do modelo neoliberal de desenvolvimento.

Autora de Urban China e Building Globalization: Transational Architecture Production in Urban China, Xuefei Ren apresentou, na última sexta-feira 14 de agosto, o seminário “Governança Urbana e os Direitos de Cidadania: reflexões a partir da experiência em Mumbai, Nova Delhi, Xangai e Pequim”, na Fundação Ford, no Rio de Janeiro, tendo visitado também diferentes favelas tanto na Zona Sul como no subúrbio carioca. À vista disso, Xuefei concedeu uma breve entrevista¹ ao Observatório das Metrópoles contando sobre as suas impressões e a experiência de sua investigação comparativa.

Confira!

OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES: Há algum tópico em especial que esteja interessada em estudar sobre o Rio de Janeiro?

XUEFEI REN: Antes de vir ao Rio, eu tinha lido um livro, assistido a um documentário e até mesmo participado de uma conferência acadêmica sobre passeios turísticos em favelas. Essas discussões sobre o Brasil urbano me deixaram bastante curiosa quanto ao caso do Rio de Janeiro, que pode ser considerado a “meca” dos passeios turísticos em favelas. Chamou-me a atenção que a disparidade social seja tão impressionante a ponto de que os moradores da “cidade informal” consigam construir uma verdadeira indústria cultural ao colocar a pobreza como “vitrine” para estrangeiros.

OM: Além dos seus estudos sobre assentamentos informais e impactos sociais dos megaeventos, qual a hipótese ou problemática que te orientou a fazer esse trabalho de campo na cidade do Rio de Janeiro?

XR: Eu estou interessada em examinar a capacidade do Estado – ou, mais especificamente, a capacidade das prefeituras – em dar melhores condições de bem-estar urbano à população. Também venho estudando a China e a Índia, mas estes são dois casos extremos de governos locais. No caso chinês, a atuação do governo é muito forte, ao passo que na Índia essa atuação é muito fraca. Eu consideraria o Brasil um meio-termo, pois as prefeituras são relativamente autônomas em relação ao governo federal. Elas têm determinados recursos para executar certos projetos, mas não dispõem de tudo que precisam para resolver as questões mais problemáticas enfrentadas pelas cidades que gerem. Assim sendo, tenho interesse em examinar, por exemplo, no caso do Rio, o tanto de bom ou de prejuízo que os governos locais podem ocasionar em setores urbanos-chave, tais como habitação social, infraestrutura, uso do solo, educação, etc.

OM: Quais foram as suas impressões sobre as favelas? Quais as que você chegou a visitar?

XR: Eu estive em algumas poucas e diferentes favelas, como Cantagalo, Rocinha, Complexo do Alemão, Babilônia e Santa Marta. O que mais me impressionou é o quanto essas favelas podem ser economicamente intensas no sentido de “criar” cidades. Tudo precisa ser negociado – água, eletricidade, sistema de esgoto, escolas etc. A condicionalidade na prestação desses serviços é social e ambientalmente catastrófica. Assentamentos informais como as favelas são modos dispendiosos de fazer nossas cidades crescerem. Algumas comunidades de favelas existem há mais de 70, 80 ou 100 anos, e apenas se forem “sortudas” o suficiente – como, por exemplo, se dispuserem de uma localização estratégica –, é que talvez consigam infraestrutura básica, mesmo após décadas de negociações e de mobilizações sociais. A meu ver, seria muito mais rentável oferecer infraestrutura de uma vez só e construir habitação a preços acessíveis à população urbana carente desde o início.

OM: De acordo com as suas impressões sobre a dinâmica urbana do Rio, você poderia apontar similaridades ou particularidades com os seus estudos sobre a China e a Índia?

XR: Primeiramente, a razão para que existam assentamentos informais é a mesma: a falta de vontade do Estado em prover habitação social. Em segundo lugar, nesses três países existe uma grande polaridade na dinâmica do meio urbano construído. A influência dos megaeventos e de um padrão global de arquitetura está sendo intensificada paulatinamente nas nossas cidades e potencializada pelos recursos públicos revertidos a essa causa.

Por fim, a reflexão sobre a redução da desigualdades habitacional é a mesma: tanto os projetos de redesenvolvimento local com fins lucrativos, assim como aqueles de reassentamento gradativo da população não são capazes de resolver esse problema. O responsável por solucionar essa questão é o Estado local, que evidentemente deveria inserir sua política de habitação social voltada para a população de baixa renda numa escala muito mais abrangente do que a vigente.

A particularidade do Brasil é quanto ao tráfico de drogas, algo que não se vê nas cidades chinesas e indianas. Nesse sentido, o Rio é parecido com Chicago, onde os problemas dos guetos são interconectados com os das favelas através dos altos índices de desemprego e de criminalização, especialmente de homens negros.

¹ Entrevista realizada por Pedro Bastos, pesquisador do Observatório das Metrópoles.