Em artigo para a Carta Capital, Paolo Colosso e Maria Inês Sugai, membros do BrCidades, falam sobre a série de reportagens do grupo ND (Notícias do Dia) sobre ocupações e área de informalidade na capital catarinense, Florianópolis.

O caderno, denominado “Relatório Cidade Ameaçada”, reproduz uma série de estigmas sobre as favelas, vinculado-as ao crime e a desordem, com afirmativas como “favelas desvalorizam o entorno” e “a nova rocinha não é aqui em Florianópolis”. Como solução, as reportagens propõem uma limpeza social, declarando que “ainda há tempo de expulsar”.

Diante dessas “reportagens-panfleto” que combinam inconsistências e preconceitos em seu conteúdo, Colosso e Sugai resgatam importantes questões do processo histórico da construção de Florianópolis, argumentando que esses discursos elitistas servem justamente para ilustrar a urbanização desigual e segregadora que apresenta um caráter de narrativa racional e legitima. Nesse sentido, é didática “na medida em que convocam professores, profissionais e entidades responsáveis a estarem mais presentes nos debates públicos porque, do contrário, esses são ocupados por pessoas despreparadas, opiniões inconsistentes e por vezes oportunistas”. Confira o texto!

Favela da Rocinha (Rio de janeiro). Foto: Fernando Frazão (Agência Brasil)

Cidade ameaçada? Panfletos catarinenses para tirar pobres da vista

Por Paolo Colosso e Maria Inês Sugai

Na semana passada, um jornal do grupo ND (Notícias do Dia), de Santa Catarina, publicou uma série de reportagens sobre Florianópolis e municípios vizinhos, que chocou urbanistas de todo o Brasil por sua combinação de inconsistências e preconceitos. Através do jornal ND+ e da NDTV, que possui seis emissoras afiliadas à Record TV, lançaram um caderno denominado “Relatório Cidade Ameaçada”. O caderno é, na realidade, um conjunto de panfletos que reproduzem justificativas pretensamente racionais para dar fundamento às insatisfações de elites conservadoras, ao oportunismo do mercado imobiliário e de grupos empresariais e ao desejo permanente de manter os mais pobres afastados das áreas de seus interesses. Na cesta de pérolas do jornal há afirmações como “a nova rocinha não é aqui em Florianópolis”, comparando com a “ocupação favelada de morros” do Rio de Janeiro e propondo a seguinte solução: “ainda há tempo de expulsar”. Enquanto isso, a trajetória da pandemia sequer foi mitigada na capital.

Boa parte do “relatório” mobiliza e reforça incongruências e lugares comuns que permeiam o imaginário social, como o “crescimento desordenado”, o “caos urbano” gerado por “invasões” e “obras clandestinas”. As reportagens reproduzem a torto e a direito estigmas que vinculam as ocupações e áreas de informalidade a uma população gente perigosa, onde estão as “facções criminosas”, que tornam a “cidade ameaçada”. O discurso de ódio é recheado por imagens e algumas opiniões de profissionais que parecem incitados por questões tendenciosas e cujas respostas se tornam insuficientes em meio a tantos estereótipos e preconceitos.

A urbanização nunca foi desordenada, mas sempre seguiu a ordem de um poder público muito generoso com as camadas de alta renda, compromissado em satisfazer suas pressões e garantir seus interesses, porém extremamente omisso com as necessidades urgentes dos mais pobres. Mesmo nos tempos de intensa urbanização no Rio de Janeiro, em São Paulo ou Florianópolis, não faltou planejamento. No geral, historicamente o poder público sempre destinou os seus planos e os grandes investimentos em infraestrutura e serviços públicos para sustentar projetos grandiosos de elites ou para abrir frentes de investimento para o capital imobiliário, segregando os excluídos e invisibilizando essa realidade do conjunto da população. A prioridade sempre foi garantir espaços urbanos com qualidades semelhantes às cidades da Europa e dos EUA onde viviam governantes e camadas de alta renda. Já os subalternos, que faziam o cotidiano urbano funcionar, permaneciam à própria sorte e ainda eram estigmatizados como violentos e perigosos.

O fim do século XIX e o século XX todo estão perpassados de intervenções urbanísticas setoriais e privilegiadas, contribuindo para ampliar e consolidar o atual apartheid social e a segregação urbana. Foi assim que se formaram as periferias, os morros, as favelas e todas as áreas de pobreza; é assim que se reproduzem as desigualdades hoje, sobretudo porque os investimentos setorizados geram curvas de especulação muito acima do aumento de salários, elevando o preço da terra urbanizada, impedindo que as camadas pobres consigam habitar dignamente e usufruir das cidades.

Precisamos reconhecer que outras reportagens mostram mais consciência, ao reconhecerem que a valorização da ilha “empurrou a população mais pobre para as encostas de morros e periferias”. E também até têm uma razão (cínica) ao dizer que “favelas desvalorizam o entorno”. Mas o fato é que nenhuma delas vai a fundo no problema e muitas questões ficam sem respostas.

Qual a parcela de responsabilidade das camadas que querem fazer de Florianópolis a cidade inteligente, sustentável, internacional e que, junto de seus governantes, investem em ilusões, em vez de investir em saneamento, em transporte e moradia adequada para todos? Os culpados pela pobreza urbana são os que vão para as áreas centrais em busca de sobrevivência e ainda são sub-remunerados, ou a culpa é de donos de glebas que assediam a prefeitura para que a área urbanizada possa avizinhar-se de seus terrenos? A responsabilidade de toda essa desigualdade recairia sobre os promotores imobiliários e empresários da construção civil que utilizam de financiamento público para investir onde têm interesse e do modo que desejam, ou sobre os pobres que perdem longas horas diárias em transportes ruins, abarrotados e em vias precárias?

Numa caricatura, Florianópolis é isso: à primeira vista uma cidade internacional, qualificada, com patrimônio natural, arquitetônico e histórico preservados, uma futura smart city, mas com áreas de pobreza nas depressões dos morros, nas periferias e no continente, com mobilidade urbana inadequada, transporte publico insatisfatório, moradias com preços altamente especulados, além de precariedade no abastecimento de água e saneamento.

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