Ex-Ministro Geddel Vieira Lima e a imagem ilustrativa do edifício La Vue

O escândalo envolvendo a autorização para construção do edifício La Vue em uma área protegida pelo patrimônio histórico em Salvador, que causou a demissão do então ministro Geddel Vieira Lima, é uma amostra de como o capitalismo urbano ultra liberal tem atuado na capital baiana na última década. A cidade vem passando por um ciclo de mercantilização agressivo comando por uma coalizão de forças e interesses na qual estão presentes grandes empresas imobiliárias, de obras públicas, de turismo, a alta classe média branca e os velhos políticos da tradicional oligarquia baiana. O objeto central desta coalizão mercantilizadora é a re-apropriação do centro histórico de Salvador, ocupado tradicionalmente pelas camadas negras do sub-proletariado negro da cidade.

O objeto central desta coalizão mercantilizadora é a re-apropriação do centro histórico de Salvador, ocupado tradicionalmente pelas camadas negras do sub-proletariado negro da cidade. Trata-se de fato mercantilizar a cidade como natureza e como patrimônio histórico-cultural duas facetas que estão coaguladas nas área central da cidade.

A crise envolvendo o ex-ministro Geddel Vieira de Lima, que tentou pressionar o colega de governo, ministro Marcelo Calero, para que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão subordinado à Cultura, aprovasse o projeto imobiliário La Vue Ladeira da Barra, nos arredores de uma área tombada em Salvador, é a ponta dessa coalizão.

Após a denúncia do então ministro da cultura, jornais publicaram matérias mostrando como o setor imobiliário tem atuado o setor imobiliário tem atuado na capital baiana na última década. Segundo o Jornal O Globo, pelo menos outros cinco empreendimentos recentes que foram liberados pelas autoridades embora tenham tido irregularidades denunciadas por órgãos técnicos ou investigadas pelo Ministério Público.

O tombamento de dezenas de imóveis, a proibição de construção de prédios altos próximo à orla para preservar a paisagem da Baía de Todos os Santos e o bloqueio de uma série de áreas para proteção ambiental tentam manter Salvador o mais preservado possível. A partir de 2006, porém, novos espigões começaram a surgir, acompanhados de polêmicas em seus processos de autorização nos órgãos governamentais do patrimônio e do meio ambiente.

O condomínio de luxo Cloc Marina Residence, por exemplo, foi autorizado pela superintendência do Iphan da Bahia em 2009, embora tivesse um parecer contrário de técnicos do órgão, que não aprovaram o tamanho das seis torres. Para alguns arquitetos, o imóvel fere a paisagem que se tem a partir da praia, pois foi construído bem na fenda entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta.

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Esses exemplos apontam o processo do capitalismo urbano na capital baiana. Pesquisas do INCT Observatório das Metrópoles mostram que Salvador é uma das cidades mais representativas do modelo de segregação residencial brasileiro, no qual parte importante das camadas populares ficaram na área central na sua evolução como cidade capitalista.

Esse processo é comandando por uma coalizão de forças que vêm realizando todos os tipos de de violência contra a população e o legado arquitetônico e histórico da cidade suas leis de preservação, de  corrupção, tráfico de influência e de negociata usando a esfera pública para realizar interesses privados. São poderosos interesses econômicos e políticos em funcionamento que agora chegam ao Gabinete da Presidência da República.

Salvador: pobre, periférica e marginal

Para o professor Gilberto Corso Pereira, Salvador vem sendo afetada, nos últimos anos, por mudanças que têm se mostrado comuns às grandes metrópoles e a outras cidades do Brasil e da América Latina. Entre essas mudanças, destacam-se: o esvaziamento, a decadência ou a gentrificação de antigas áreas centrais; a edificação de equipamentos de grande impacto na estruturação do espaço urbano; e a difusão de novos padrões habitacionais e inversões imobiliárias destinadas aos grupos de alta e média renda, com a proliferação de condomínios verticais ou horizontais fechados, que ampliam a autossegregação dos ricos, a fragmentação e as desigualdades urbanas, assim como revelam uma afirmação crescente da lógica do capital na produção e reprodução das cidades.

“No seu conjunto, as mudanças e os processos vêm reproduzindo e reforçando os padrões de segregação e segmentação e as desigualdades que se conformaram historicamente em Salvador”, explica Gilberto Corso e acrescenta:

“Vemos que a produção capitalista e empresarial da habitação é segmentada em termos sociais e espaciais, orientando-se, basicamente, para as camadas de maior renda. Dos antigos bairros de classe alta e média, comuns nas grandes cidades brasileiras, passou-se à produção atual de megacondomínios verticais e horizontais, com seus aparatos de separação e distanciamento, os quais, além de propiciar uma homogeneidade social, impedem a porosidade urbana e asseguram que qualquer mistura social só poderá acontecer fora de suas fronteiras”, explica.

Nesse sentido, as formas recentes de produção da moradia e do espaço urbano em Salvador mostram uma ampliação da fragmentação socioespacial, agora se expressando na forma de enclaves de diversas naturezas que caracterizam o atual espaço construído.

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Livro Salvador: transformações na ordem urbana