Por onde a água escorre no Rio de Janeiro

Por onde a água escorre no Rio de Janeiro

De acordo com a Agência Nacional de Águas, o nível dos reservatórios da Bacia do Paraíba do Sul, principais responsáveis pelo abastecimento da região metropolitana do Rio de Janeiro, nunca esteve tão baixo nesta época do ano. Na última sexta-feira (28/08), eles atingiram 7,43% de seu volume útil, menos da metade do registrado no mesmo período do ano passado. A água não deve acabar nos próximos meses, já que a captação ainda pode ser realizada a partir do volume morto, mas a situação é crítica, e razões para evitar o desperdício não faltam.

 

A reportagem do site Vozerio joga luz sobre a questão da distribuição de água nas grandes metrópoles do país – no caso aqui a metrópole fluminense. No ano de 2015 quando a região sudeste vive uma das suas maiores crises de abastecimento de água – prevalencem ainda sistemas precários que não conseguem fazer uma boa gestão dos seus recursos.

 

O Observatório das Metrópoles divulga o trabalho do site VozeRio que tem como objetivo lembrar a história e explorar a diversidade da metrópole do Rio de Janeiro, discutindo temas essenciais para o desenvolvimento metropolitano.

 

A seguir um trecho da reportagem sobre o desperdício de água no Rio, que conta com a análise do pesquisador Paulo Carneiro (COPPE/UFRJ) e colaborador da Rede INCT Observatório das Metrópoles.

 

Por onde a água escorre no Rio de Janeiro

E o desperdício no Rio vem de longa data: as últimas cinco edições do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), diagnóstico anual do Ministério das Cidades dos serviços de água e esgoto no Brasil, informam que o consumo de água per capita do estado do Rio é o maior do país, com especial destaque às áreas atendidas pela Cedae.

 

Segundo o SNIS, o consumo no estado em 2013 foi de 253 litros por habitante por dia, mais de 50% acima da média nacional, de 166 litros/dia. Já os dados da Cedae mostram um consumo ainda mais alto – a média per capita da companhia em 2013 foi de 273 litros, sendo que, na capital, o consumo por indivíduo chegou a 329 litros por dia. O total é quase o triplo dos 110 litros diários recomendados pelas Nações Unidas.Como se explicam estes altos índices? Seriam o carioca e o fluminense consumidores vorazes e perdulários de H2O? Que consumidor é este, e de que modos se dão os usos da água no Rio?

 

As contas da Cedae

Especialistas ouvidos pelo Vozerio são unânimes ao desconfiar da sede supostamente enorme dos cariocas. “Se você pegar a produção da Cedae, diminuir perdas e dividir pelas pessoas, parece que o consumo é maior do mundo. Não acredito nisso”, diz Paulo Canedo, do Laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ. Segundo ele, o volume pode estar relacionado a perdas elevadas na rede de distribuição. “Minha sensação é de que perda é muito maior do que o informado.”

 

A descrença de Canedo é compartilhada por seus colegas hidrólogos Paulo Carneiro, também da Coppe, e Isaac Volschan, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFRJ. “De confiabilidade precária”, “descrédito total”, “com dados inconsistentes” foram algumas das opiniões dos hidrólogos sobre os dados informados pela Cedae.

As suspeitas se devem aos métodos de coleta de informações. As informações do SNIS são fornecidas pelas próprias companhias, método que Canedo classifica como “esdrúxulo”. As autodeclarações não contam com qualquer espécie de auditoria externa, de modo que as companhias podem declarar o que bem entenderem (a solução, segundo o pesquisador, seriam verificações aleatórias, por uma entidade independente).

Por paradoxal que seja, dados do próprio SNIS reforçam a ideia de que o desperdício nas redes de distribuição é muito maior do que o informado. O relatório adota duas fórmulas para calcular perdas de água. A primeira contabiliza perdas físicas na distribuição: determina a razão entre o volume de água consumido e o disponibilizado para distribuição. O segundo, as perdas de faturamento, resulta da comparação entre o volume de água disponibilizado e o que foi faturado pela companhia.

Até 2009 – à exceção de 2008, quando excepcionalmente foi implementado o novo método descrito abaixo – os dois índices eram rigorosamente iguais. Alternando entre os 45 e os 55% de perdas, cada litro perdido no faturamento era contabilizado como uma perda na distribuição.

Em 2010, todavia, a Cedae alterou o método pelo qual calcula suas perdas na distribuição. Alegando que a água consumida em favelas e comunidades carentes era uma forma de atendimento social e constituía um modo de consumo autorizado, a companhia separou os dois índices, supostamente reduzindo as perdas na distribuição, sem alterar as de faturamento.

Teve lugar, assim, uma aparente magnífica redução nas perdas de distribuição, que caíram de 56% em 2009 para 33% em 2010, diminuindo ainda mais nos anos seguintes, até chegar aos atuais 28%.

O problema está no fato dessas perdas não terem sido reduzidas de acordo com um plano estruturado de atendimento social, mas sim resultarem de mera decisão metodológica, incitando suspeitas de que nada mais objetivavam além de artificialmente abaixar índices. Não está claro como a Cedae determinou o que era atendimento social, mas apenas que um consumo até então irregular passou a ser considerado autorizado, sem que efetivamente nada mudasse para que isso acontecesse.

Tanto é assim que as perdas de faturamento permaneceram praticamente iguais: de 56% em 2009, sofreram leve queda para 50% em 2010, até, nos últimos três anos, se estabilizarem nos 52% ainda registrados atualmente.

A decisão de separar os dois índices foi criticada pelo SNIS, que, em sua edição relativa ao ano de 2011, ressaltou que “mudanças metodológicas como esta devem ser resultado de controles operacionais consolidados na companhia, registrados em sistemas de informação (…) Sem, ao menos, estas medições não é possível registrar com uma precisão aceitável os volumes de atendimento social”.

Segundo Paulo Carneiro, a rede de encanamentos do Rio de Janeiro é centenária e conta com manutenção precária, o que favorece vazamentos. O pesquisador diz ainda que, embora perdas sejam inevitáveis, um índice considerado aceitável gira em torno de 12%. Já Paulo Canedo define as perdas registradas hoje pela Cedae como um “crime ambiental”.

Além de seu terrível custo ambiental, as perdas de água têm também consequências para a saúde financeira da própria companhia: o SNIS calcula que a diferença entre as perdas de faturamento e de distribuição fazem com que a companhia deixe de faturar mais de 1 bilhão de reais por ano.

Em nota, a Cedae respondeu que, de suas perdas de distribuição – os supostos 28% –, dois terços se devem a ligações clandestinas e a hidrômetros quebrados, que pouco mais de um quarto se perde em vazamentos e que o restante é necessário para manutenção e limpeza de seu sistema.

Leia a matéria completa no link “Por onde a água escorre no Rio de Janeiro”

 

 

 

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