Chegou ao fim nesta terça-feira, dia 20 de abril, o Seminário “O Direito à Cidade em Tempos de Inflexão Ultraliberal”. Promovido pelo Observatório das Metrópoles, o evento apresentou 12 mesas redondas com resultados de projetos de pesquisa da rede, aliando a perspectiva teórica com a sua possibilidade de incidência. O Seminário foi o primeiro evento do Congresso “O Futuro das Metrópoles e as Metrópoles no Futuro”, que seguirá ao longo de 2021 com outras atividades.

A seguir, confira um resumo das mesas que ocorreram nos últimos dias:

Mesa 08 | Espaços metropolitanos: processos, configurações, metodologias e perspectivas emergentes

Sob a coordenação da vice-coordenadora do Núcleo Curitiba, Rosa Moura, a oitava mesa do Seminário contou com apresentações de Paulo Roberto Soares, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Núcleo Porto Alegre, Jan Bitoun, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador do Núcleo Recife, Olga Lúcia de Freitas-Firkowski, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora do Núcleo Curitiba, e Ana Cristina Fernandes, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora do Núcleo Recife. A comentarista convidada foi a professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Núcleo São Paulo, Sandra Lencioni.

Na oportunidade, foi lançado o livro Espaços Metropolitanos: processos, configurações, metodologias e perspectivas emergentes, organizado por Rosa Moura e Olga Lucia de Freitas-Firkowski. A publicação reúne o primeiro conjunto de resultados da atual etapa da pesquisa “Organização do espaço metropolitano e construção de parâmetros de análise das dinâmicas de metropolização”, que prossegue em desenvolvimento no âmbito do Observatório das Metrópoles. “O livro possui 16 capítulos e apresenta os primeiros resultados da pesquisa. Os capítulos são precedidos pelo prefácio precioso do coordenador nacional do Observatório, Luiz Cesar Ribeiro, que faz uma reflexão sobre os desafios nesse momento de transição nas relações entre capital e metrópole”, observou Rosa Moura.

Segundo Olga Firkowski, o livro teve o compromisso de organizar uma metodologia comum e disparar uma perspectiva analítica a partir dessa metodologia. “Esse livro significa uma seleção de temas e conteúdos que nossos colegas já estavam desenvolvendo, e que se alinham às nossas preocupações. Por isso, são textos independentes do ponto de vista de adotar uma única metodologia, trabalhamos de uma forma diferente. Foi um intenso trabalho de leitura, discussão e uma troca intensa entre os pares”, ressaltou. Durante as apresentações da mesa, foram abordados os temas de alguns capítulos da obra, como: “Metropolização do espaço e desconcentração metropolitana: a cidade-região de Porto Alegre”, “Urbanização difusa e dispersa: influência das malhas rodoviárias nas Regiões Geográficas Intermediárias de Pernambuco e da Paraíba – do Litoral ao Agreste” e “Será inovação um fator de comando relevante? Anotações metodológicas para compreensão do fenômeno metropolitano contemporâneo em contexto periférico”.

Mesa 09 | Cidade, trabalho e economia popular e solidária

No dia 16, a Mesa 09 se baseou na coletânea Da cooperação na cidade à cidade cooperativa, que reúne experiências coletivas populares que estimulam a reflexão sobre a cidade como a escala intermediária entre o comunitário e o nacional/global, a escala dos sistemas de troca e de circulação cotidiana de pessoas e produtos.

A coordenação da Mesa ficou a cargo da pesquisadora do Núcleo Rio de Janeiro e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luciana Lago, que também participou da parte das apresentações, juntamente com a pesquisadora do Núcleo Rio de Janeiro, Fernanda Petrus e a professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Heloisa Costa. O comentarista convidado foi o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Felipe Addor.

De acordo com Luciana, a coletânea apresentada durante a Mesa foi um dos resultados da linha de pesquisa que surgiu como desdobramento de projeto em âmbito nacional sobre formas de provisão da moradia. “Uma particularidade dessa linha é que ainda é fortemente exploratória, a metodologia está em construção há seis anos e agrega diferentes métodos e campos de pesquisa, sendo que está muito concentrada no Núcleo Rio de Janeiro. Buscamos entender a economia solidária como um processo, uma construção programática”, ressaltou a pesquisadora.

Os principais objetivos da pesquisa são construir uma metodologia qualitativa de leitura da economia popular nos territórios; qualificar a diversidade de práticas econômicas solidárias; discutir os parâmetros que definem o universo dos empreendimentos solidários, no sentido de ampliar o universo mais ou menos instituído no Brasil (a partir de 2003) e investigar os impactos da dinâmica urbana na formação das redes e das práticas associativas, no funcionamento dos empreendimentos. “As experiências coletivas de trabalho no Brasil, em diferentes estágios de auto-organização não revelam grandes transformações na vida das pessoas envolvidas, mas pequenas mudanças nas formas de pensar, de confiar ou de se juntar”, pontuou Luciana.

Mesa 10 | Metrópole e capitalismo financeirizado

Oferecer um panorama das discussões e complexidades que envolvem o fenômeno da financeirização, desde sua construção teórica até o seu rebatimento espacial nas cidades, a partir do livro As metrópoles e o capitalismo financeirizado (disponível para download em nossa Biblioteca Digital). Este foi o objetivo da Mesa 10, que ocorreu dia 19 e contou com a coordenação do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador nacional do Observatório das Metrópoles, Luiz Cesar Ribeiro.

Na parte das apresentações, a Mesa teve a presença dos pesquisadores do Grupo de Pesquisa “Metrópole, Estado e Capital”, vinculado ao Núcleo Rio de Janeiro, Tarcyla Ribeiro, Nelson Diniz, Igor MatelaAlexandre Yassu. Em suas apresentações, Tarcyla e Nelson também abordaram suas respectivas teses de doutorado: “Dominância Financeira, Regulação Legal e Espaço Urbano: o caso da regularização fundiária no Brasil” e “A financeirização na longa duração: dinheiro, tempo e poder”. A comentarista convidada da mesa foi a professora da Universidade de São Paulo (USP), Lucia Shimbo.

Ao iniciar os trabalhos, o coordenador nacional do Observatório explicou que o Grupo de Pesquisa foi criado em 2015, com o intuito de renovar um entendimento dos processos de globalização, tentando construir alternativas teóricas que pudessem informar sobre as transformações do capitalismo e os processos de reestruturação urbana. “Construir um marco teórico para o Observatório, a partir de leitura coletiva e compartilhada sobre como podemos entender a financeirização é o objetivo do grupo. A financeirização era algo presente na literatura, mas havia interpretações diversas, e isso nos levou à necessidade de fazer um investimento teórico do que seria a financeirização e impulsionar pesquisas sobre o tema”, explicou Ribeiro. O livro possui 18 capítulos e 17 autores, muitos deles interlocutores-convidados, representantes de correntes de pensamento da financeirização e foi organizado como uma síntese sobre os nexos da financeirização e urbanização, ou seja, a armação de um arcabouço de um marco que permite pensar esses métodos.

No momento dos comentários, a professora Lucia Shimbo destacou que a obra é um esforço teórico-analítico e empírico de uma pesquisa de grande envergadura. “O livro clama por uma longa duração do espaço-tempo do capitalismo, constituindo uma agenda de pesquisa que revisite a própria história”, ressaltou. Para ela, é fundamental avançar no detalhamento, sobretudo relacionado às práticas que os agentes vão adotar e os instrumentos já adotados, como são formulados e utilizados, como, por exemplo, a securitização pelos entes federados. “Chamo a atenção para o aumento da importância da regulação legal, uma mudança via titulação. É um instrumento necessário para que a terra seja homogeneizada e passível de ser um ativo no mercado financeiro”, observou.

Mesa 11 | A divulgação científica e seus desafios atuais

Na última mesa do Seminário, o intuito foi discutir os fenômenos escancarados pela conjuntura que renovam as questões e dilemas envolvidos na divulgação científica, como o atual estágio de confiança pública na ciência na era de fake news, a linguagem e a forma do discurso científico na divulgação, o papel do(a) cientista e o seu protagonismo enquanto divulgador(a) e, por fim, o objetivo da divulgação: persuadir ou informar?

O debate teve a coordenação da pesquisadora e gestora de Comunicação e Divulgação Científica do Observatório das Metrópoles, Tuanni Borba. As apresentações ficaram a cargo da coordenadora do Instituto Nacional de Comunicação Pública em Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), Luisa Massarani; da diretora da Agência Bori, pesquisadora e jornalista de ciência, Ana Paula Morales; da diretora-presidente do Instituto Questão de Ciência e pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), Natalia Pasternak e da professora e pesquisadora de Administração Pública e Governo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Gabriela Lotta.

Na oportunidade, a pesquisadora e gestora de Comunicação fez uma breve apresentação sobre a divulgação científica do Observatório. Os principais objetivos são: divulgar o que é produzido pela rede, integrar e engajar seus pesquisadores e pesquisadoras, influenciar o campo do planejamento urbano e regional, e incentivar o debate na agenda pública sobre o urbano-metropolitano. Uma importante atividade da Comunicação é o envio do Boletim Semanal todas às quintas-feiras para uma lista com mais de seis mil e-mails cadastrados, e que conta com registro ISSN desde o início deste ano. Tuanni ainda anunciou uma novidade: a integração do Boletim em Áudio produzido pela rede na grade da programação da Rádio UFRJ, a partir de maio.

Seguindo as apresentações, Ana Morales, explicou que a Agência Bori é um serviço que apoia a divulgação científica, ajudando a promover uma mudança por meio do jornalismo. “Queremos ampliar a presença da ciência na imprensa brasileira para que o conhecimento chegue nas pessoas comuns e tomadores de decisão”, pontuou. A Bori antecipa estudos para a imprensa, onde é feita uma curadoria e a produção de um texto informativo, divulgado para jornalistas cadastrados, que podem trabalhar a pauta e publicar a matéria sobre o estudo.

A professora Gabriela Lotta iniciou a sua falando abordando as mudanças que sua pesquisa sobre o serviço público enfrentou com a pandemia. “Atuar nesse contexto se transformou em elemento central para melhorar os processos decisórios dentro da administração pública. Direcionei uma parte enorme das pesquisas para estudar profissionais que estão atuando na linha de frente da pandemia, para influenciar e mostrar como os governos poderiam lidar com os profissionais da melhor forma”, explicou. Nesse sentido, a pesquisadora passou a produzir relatórios com linguagem mais simples para subsidiar os governos e matérias na imprensa. “Fomos aprendendo a fazer pesquisa que influenciasse o debate público”, mencionou.

Durante a mesa, Luisa Massarani, a partir do exemplo das vacinas, destacou a necessidade de diálogo. “É necessário entender melhor a sociedade, as narrativas e, ainda, precisamos fazer campanhas que respeitem as dúvidas e as perguntas que a sociedade possui. Não deve ser neutra a divulgação científica, especialmente em uma pandemia”, concluiu. Para ela, a beleza da divulgação científica é a diversidade e é extremamente importante envolver diferentes setores da sociedade, pensando nos modelos de divulgação científica.

Para Natalia Pasternak, o trabalho de comunicação da ciência é a promoção de pensamento crítico e racional. “O trabalho que desenvolvo não é marketing, nem divulgação científica, tampouco jornalismo. A divulgação cientifica é o que várias revistas e jornais fazem, trazem a beleza da ciência, atraindo crianças e jovens e tem o intuito de encantar. O que eu faço é o trabalho que ninguém fazia, a promoção de pensamento crítico e racional, ceticismo. Tento levar a ciência que impacta o dia a dia do cidadão e a tomada de decisões, permeadas pelo que a gente sabe ou não sabe sobre ciência. Quando chegam na esfera de governo e parlamento afetam a vida dos cidadãos, por conta das políticas públicas”, afirmou.

Natalia também falou sobre negacionismo. “O ataque na essência, nos conceitos, quando a ciência é negada, esse negacionismo é usado na formação de políticas públicas esdrúxulas no Brasil. Toda vez que a ciência é atacada, uma minoria se levanta para defendê-la. Só que agora, muito mais gente se levanta para defender a ciência, porque viram o tamanho do estrago que o negacionismo pode trazer. Espero que a gente possa encarar a comunicação do pensamento crítico e racional e do ceticismo como essencial para o desenvolvimento de um país”, finalizou a diretora-presidente do Instituto Questão de Ciência.