Houve um aumento da desigualdade de renda do trabalho nas metrópoles brasileiras entre o final de 2019 e o segundo trimestre de 2020, resultado da crise econômica do período, agravada pela pandemia da COVID-19. É o que aponta o “Boletim – Desigualdade nas Metrópoles”, estudo elaborado pelo Observatório das Metrópoles, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e o Observatório da Dívida Social na América Latina (RedODSAL).

O boletim visa produzir um conjunto de informações relevantes sobre as desigualdades de rendimentos no interior das regiões metropolitanas do país. O coordenador do Núcleo Rio de Janeiro do Observatório e professor do IPPUR/UFRJ, Marcelo Gomes Ribeiro, e o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS, André Salata, são os coordenadores do estudo, disponível integralmente em nosso site (incluindo as tabelas e gráficos).

Segundo os coordenadores, espera-se que os dados reunidos colaborem para um debate público mais bem informado a respeito da grave situação das metrópoles brasileiras, no que concerne às desigualdades sociais. Eles explicam que as informações elencadas no estudo foram retiradas dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc), do IBGE, em especial da divulgação trimestral. Isso significa que, a cada trimestre, os dados serão atualizados e divulgados em novos boletins. Em cada um destes boletins trimestrais, além das informações básicas, serão inclusos blocos complementares sobre desigualdade e escolaridade, desigualdades raciais, desigualdades de gênero e desigualdade de oportunidades.

Ao todo estão envolvidas 22 regiões metropolitanas: Manaus, Belém, Macapá, Grande São Luís, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, Salvador, Belo Horizonte, Grande Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vale do Rio Cuiabá e Goiânia; além do Distrito Federal e da Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento da Grande Teresina.

Principais resultados e apontamentos

Um dos principais apontamentos identificados com o estudo foi o aumento significativo e generalizado das desigualdades no interior das metrópoles no último trimestre. Para medir o grau de distribuição de rendimentos entre os indivíduos de uma população, utiliza-se o coeficiente de Gini, que varia de zero a um. O valor zero representa a situação de completa igualdade, em que todos teriam a mesma renda; e o valor um representa uma situação de completa desigualdade, em que uma só pessoa deteria toda a renda. Dessa forma, é possível comparar a desigualdade de renda entre dois momentos ou locais a partir desse coeficiente.

De acordo com dados apresentados no primeiro “Boletim – Desigualdade nas Metrópoles”, a média do coeficiente de Gini para o conjunto das Regiões Metropolitanas era de 0.610 no 1º trimestre de 2020, e no 2º trimestre de 2020 chegou em e 0.640. Em geral, todos os estratos de rendimento apresentaram queda de sua renda no último trimestre, porém, essa queda foi proporcionalmente maior entre os 40% mais pobres. A pesquisa identifica que houve um aumento da distância entre o topo e a base da pirâmide no interior das metrópoles ao longo dos últimos anos, com aceleração desse crescimento no último trimestre.

Os pesquisadores apontam, ainda, um substantivo aumento do percentual de “vulnerabilidade relativa” (pessoas cuja renda domiciliar não chega à metade do perfil mediano) no interior das metrópoles no período mais recente. No 1º trimestre de 2020 havia 23,5 milhões de pessoas nesta situação, correspondendo a 28.4% da população. Já no último trimestre chegou a 25,8 milhões de pessoas, ou 31.3% da população metropolitana.

Desigualdade racial na distribuição dos rendimentos nas metrópoles

Conforme o estudo, a desigualdade racial tem se mantido em nível elevado no interior das metrópoles. No geral, verificou-se uma tendência de manutenção dos rendimentos relativos dos negros, em relação ao dos brancos, no interior das metrópoles. Na média das Regiões Metropolitanas, no 2º trimestre de 2020, os negros apresentaram um rendimento médio correspondente a somente 57,4% do rendimento dos brancos. De acordo com o boletim, esses dados apontam para um cenário de grande desigualdade racial na distribuição dos rendimentos nas metrópoles brasileiras.

Confira o primeiro “Boletim – Desigualdade nas Metrópoles”.

Acesse aqui as tabelas e gráficos do estudo.